Cultura de paz

O fim de ano e as listas

Foto: Divulgação/Illumination

Recém-saída da sala de cinema onde fui assistir o Grinch – e sentindo uma leve identificação com o monstrinho verde que odeia o Natal e que todas as crianças do mundo têm certeza de que é um vilão (os adultos, nesse caso, são mais empáticos) –, recebi uma dessas mensagens que piscam no celular com notícias – eu nem sempre me lembro de ter me inscrito em tantos canais, sites e blogs (mas, por favor, inscrevam-se no meu!!! 😊) – cuja manchete dizia assim: “Depressão e ansiedade podem aumentar no fim de ano; saiba como lidar”. Pensei: – Meu Deus, os algoritmos do Google descobriram que vim assistir o Grinch e, o que é pior, sacaram que eu consegui entender o ponto de vista do vilãozinho criado por Dr. Seuss.

Eu tenho tentado mudar, mas durante muitos anos tive uma obsessão por listas. Mais que escrevê-las, eu tinha prazer em ticá-las:

. Ir ao dentista

. Comprar pasta de dente

. Pagar as contas que vencem no dia 5

. Pagar as contas que vencem no dia 10

A cada tique, eu me sentia menos devedora. Me sentia menos imperfeita. Mesmo que a pasta de dente fosse acabar e as contas fossem todas voltar a vencer no próximo mês. Às vezes penso que todas essas pessoas que, como eu, tiveram uma instantânea empatia pelo Grinch – somos muitos, acredite! – também devem ter obsessão por listas. Acho, inclusive, mais plausível do que a hipótese de que todas elas tenham sido abandonadas sozinhas na festa de Natal do orfanato como o bichinho do filme.

O problema das listas é que nem sempre conseguimos ticá-las. E quem faz listas de ano novo corre um risco ainda maior de chegar ao 31 de dezembro com um desempenho bem abaixo da média. Às vezes eu acho que a depressão de dezembro começa nos desejos de janeiro. É que a pessoa bota no papel:

. Casar

. Comprar um carro

. Conseguir o cargo de supervisor

. Passar o próximo ano novo em Paris

Aí ela passa o ano inteiro ticando as listas de contas a pagar, do supermercado do mês… E no meio do caminho o noivado se rompe, o cargo de supervisor vai pro outro colega, a pessoa é demitida! Mas todo mundo segue porque a vida é desse jeitinho mesmo, impermanente e imprevisível. Cada um se vira como pode, arruma outro trampo, inventa outras coisas e, aos trancos, continua ticando as listinhas do mês, às vezes até com louvor.

Aí chega dezembro. Ah, dezembro! E a gente resolve se lembrar da bendita lista de janeiro. Descobre que o casamento que ia ser não foi, que o cargo de supervisor virou desemprego, que o carro velho talvez nem esteja mais na garagem e que, pro ano novo, vai rolar no máximo um arroz com lentilha igual ao do ano passado mesmo. Em vez de rir um pouco dos planos que tinha feito e perceber que esse negócio de projetar a vida só serve pra descobrir que ninguém tem controle de nada, a gente começa a ver pelinhos verdes brotarem pelo corpo inteiro e se transforma no Grinch.

A matéria que piscou no meu celular quando saí do cinema tinha uma lista de procedimentos para ajudar a lidar com a depressão e a ansiedade do fim de ano. Resolvi não ler. Decidi fazer as pazes com o Grinch e o Papai Noel ao mesmo tempo.

Minha lista de 2018 eu perdi. Melhor pra mim. Acho que não conseguiria ticar nenhum item dela, se minha falha memória não estiver me traindo mais que o habitual. E estou bastante disposta a ingressar num 2019 sem listas, sem planos, sem grandes e importantes decisões de ano novo. Quero caminhar, apenas. Com disposição, com alegria e com vontade de tornar cada dia, cada lugar e cada encontro – inclusive comigo mesma – um pouco melhor. Muito melhor. O quanto for possível melhorar.

2019 vai nos atropelar. A vida sempre nos atropela. Se pudermos listar menos projetos e nos dedicar de forma mais intensa a cada momento, de ação e de fala ou de silêncio e repouso, talvez consigamos chegar ao próximo dezembro mais leves. De bem com os nossos pelinhos verdes e talvez achando até uma certa graça deles.

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