Cultura de paz, mindfullness

Lobo-lo-bo-lo-bo-lo

Foto: Pixabay

Tem um livro infantil de que eu gosto muito. É um livro de Chico Buarque chamado Chapeuzinho Amarelo. Conta de uma menina que morria de medo do lobo, mas um dia entendeu que lobo, dito assim bem rápido, acabava virando bolo e não metia mais medo em ninguém. Não sei escrever com a poesia do Chico, então estou aqui cometendo a infâmia de resumir a obra desse jeito tosco. Mas acho que todo mundo devia ler o original e presentear às crianças queridas.

Pois bem, estou aqui falando desse livro porque acho que é uma extrema sabedoria que a gente consiga olhar bem de perto pras nossas emoções, até perceber o momento em que elas surgem… porque é exatamente ali que elas desaparecem. As crianças compreendem isso com uma sabedoria admirável. Basta ver as reações que têm ao ouvir a história da Chapeuzinho Amarelo. Nós, adultos, damos tanta solidez aos nossos sentimentos que achamos quase impossível vê-los se dissolverem.

Acordei com o coração meio apertado e uma sensação de ansiedade um tanto inexplicável. Me irritei com o barulho do telefone tocando e já ia pedir que não me dessem bom dia quando me lembrei do livro da Chapeuzinho Amarelo. De onde viria esse sininho de irritação que poderia tocar durante o dia inteiro, azedando todos os meus contatos a partir daquela manhã? Decidi ver se o meu lobo também seria capaz de ser convertido em lobo.

Pedi licença por 20 minutos porque precisava de um pouco de silêncio para espreitar as minhas emoções. De onde vinha aquele aperto no peito tão logo eu me levantara da cama? Eu tinha dormido bem… Silenciei e comecei a perguntar à minha irritação em que momento ela tinha aparecido. Eu havia despertado sem despertador. Não era o barulho do relógio, portanto. Também não eram os vizinhos, que geralmente faziam barulho à noite, mas não pela manhã.

Continuei olhando para aquela irritação, que parecia ter surgido antes mesmo do dia raiar e eu me levantar. Eu havia acordado cerca de duas horas antes de finalmente me levantar e ficara fritando na cama até um horário em que considerei razoável abrir os olhos para finalmente iniciar o dia. Mas por quê?

Na noite anterior, eu tinha trabalhado até tarde e não tinha conseguido terminar minhas tarefas. Dormi pensando no que tinha para fazer. Ao acordar, tinha clareza de que havia tempo para fazer tudo o que era preciso, mas a ansiedade de quem não tinha terminado suas tarefas ainda estava ali.

Olhei pr ‘aquilo e entendi que não havia motivo para me irritar. Nem para estar ansiosa. O dia anterior já tinha terminado. Eu não havia concluído o que havia me proposto e já havia resolvido que estava tudo bem com isso. Tanto que dormi. Agora estava acordada e poderia concluir o que precisava ser feito. Mas não antes de um café. O lobo tinha virado bolo.

Retornei do silêncio e sorri para os meus. “Bom dia, pessoal. Obrigada por me permitirem esse silêncio. Eu estava ocupada em transformar um lobo em bolo.” Ninguém entendeu nada. Mas eu ri. E pensei que devíamos nos ocupar mais de transformar nossos lobos em bolos.

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