Cultura de paz, terapias holísticas

Fique na pergunta

Para tia Lelena (in memorian) e sua filha Juliana Jayme, minha amiga e comadre, que nunca me deixou esquecer a pergunta de sua mãe

Imagem: Pixabay

Como sabeis que é má sorte?

Com essa pergunta, a minha muito sábia tia Lelena costumava acalmar o coração dos sobrinhos e dos filhos quando o chão parecia se abrir sob os nossos pés. Aflitos e ansiosos, nós geralmente queremos respostas. Mas as respostas não acalmam. Elas simplesmente fecham todas as possibilidades. As perguntas ampliam porque são abertas, plenas de possibilidades. Não sabemos se é má sorte. Tampouco sabemos se é boa sorte. Não sabemos, apenas. Todas as possibilidades estão aí. Todos os caminhos. Todas as escolhas.

E, no entanto, nós que tanto clamamos por liberdade geralmente vivemos ávidos pelas respostas fechadas, certeiras… aprisionadoras.  Queremos a certeza de que nada irá nos surpreender. De que a vida vai fluir segundo os nossos planos, sem o incômodo das intempéries. Tornamo-nos ansiosos ante a menor possibilidade de que os nossos planos se frustrem. E não nos damos conta de que o controle da vida não é simplesmente impossível. Ele é também indesejável.

A má notícia é que você está em queda livre.

A boa notícia é que não há chão.

Eu ainda não havia lido essa citação de Chogyam Trungpa quando tinha sonhos recorrentes com uma queda infinita no que parecia ser aquele túnel em que Alice despenca para a toca do coelho apressado. A ideia de impermanência era apavorante pra mim. Eu me agarrava a qualquer coisa que parecesse sólida. E descobria sempre, desolada, que “tudo o que é sólido desmancha no ar” (sim, é a segunda vez que faço referência ao título do livro de Marshall Berman neste blog…).

Esses dias me lembrei da pergunta de tia Lelena. E entendi que ela era muito mais sábia do que eu podia supor. Nos inúmeros caminhos que tomei ao longo desses 45 anos, uma vez fui estudar filosofia. Comecei uma pós-graduação na UFMG, mas não concluí. Daqueles seis meses de curso, ficou apenas a certeza de que os maiores filósofos eram as crianças, capazes de olhar para o universo inteiro com um grande olhar perguntador e nenhuma certeza. A maternidade, que só fui viver bastante tempo depois, confirmou a minha suspeita. As crianças são mesmo muito mais sábias que todas essas pessoas grandes cheias de repostas.

– Como sabeis que é má sorte?

Como sabeis que tudo já está pronto? Como sabeis que não há nada além dessa solidez que tu podes tocar? Como sabeis que não há esperança?

O livro mais encantador que estou lendo – costumo ler mais de dois ou três ao mesmo tempo e por isso demoro a terminar…rs – chama-se O poder de uma pergunta aberta, de Elizabeth Mattis-Namgyel (Editora Lúcida Letra). Me deu vontade de citar um trechinho dele:

A vida é abudante. De fato, a vida é tão comovente, curiosa, triste, excitante, assustadora e agridoce que às vezes chega a ser insuportável. Mas, como seres humanos, precisamos nos perguntar: ‘Devemos rejeitar a abundância da vida?’. Rejeitar ou não rejeitar – estar aberto –, eis a questão. E esse tipo de questionamento nos leva ao coração da investigação pessoal e nos ensina a acolher plenamente nossa humanidade.

E essa abundância da vida, tão mais farta e ampla que todos os conceitos e espaços em que tentamos encaixotá-la, me leva também às Barras de Access, uma das técnicas terapêuticas que utilizo em meus atendimentos. Quando corremos as barras, a gente também não se preocupa com as respostas, mas frequentemente focamos apenas numa pergunta aberta:

– O que mais é possível que eu ainda não considerei?

Um comentário em “Fique na pergunta”

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