Terapias

A força da vulnerabilidade

Para Letícia Carreira, que generosamente insistiu pra que eu me rendesse ao tarot

Foto: Daniela Mata Machado

Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê chorar

O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir

(trecho da canção Estrela, de Gilberto Gil)

Passei anos atormentada pela carta da Torre. Tinha, inclusive, um pesadelo recorrente com um castelo medieval cheio de labirintos e absolutamente claustrofóbico, cuja única saída era saltar de sua torre mais alta. Levei mais de uma década pra compreender que aquele pesadelo era a carta da Torre. A famigerada carta que me deixava em pânico cada vez que aparecia nos meus jogos online. Eu vivi a Torre. Passei por ela e a vi destruir, com raios e trovões, cada tijolo da fortaleza que eu havia erguido para me proteger. Até que, bem mais recentemente, decidi aprender a jogar tarot de verdade… e passei a encontrar, em cada um dos meus jogos, a carta da Estrela. Então é isso: depois da Torre, vem a Estrela.

Nesse último fim de semana, a carta da Estrela se abateu sobre o meu corpo e a minha alma de um modo absolutamente visceral. Durante a Master Class em AIM – Abordagem Integrada da Mente (clique aqui para saber mais sobre essa abordagem incrível), facilitada pelo psiquiatra e neurocientista Diogo Lara, eu me deixei inundar pela vulnerabilidade e pela abertura da décima sétima carta do tarot.

Depois de ser arremessada do alto de uma Torre irremediavelmente destruída, a heroína está nua e já entendeu que não precisa carregar toda a bagagem que seguia arrastando: despeja na terra a água que vai ajudar a florescer e frutificar o solo e devolve ao rio o restante. A Estrela já passou pela Torre. E ela sabe que tudo o que basta é tão somente aquilo que é essencial.

A primeira formação em AIM me botou cara a cara com a carta da Torre: era preciso aceitar a destruição do que já se encontrava em ruínas. Seguir cimentando tijolo em cima de tijolo numa fortaleza que já não podia sustentar minha persona frágil era um trabalho inglório, que não resultaria em nada. Deixar que a fortaleza implodisse e revelasse toda a fragilidade do ego era um passo importante naquele momento.

Mas eu sabia que, cerca de um ano e meio depois, era preciso avançar mais um passo. Diante da Torre caída, um pouco contra a minha vontade, era necessário me fazer vulnerável, exposta e, finalmente, aberta para o caminho de esperança que se descortina. Não é preciso carregar a água: a que não serve para irrigar o solo deve retornar ao rio. Não é preciso erguer novos muros, nem criar e polir personas diversas. A Estrela se move absolutamente exposta, desprotegida e, por isso mesmo, forte. Com a força de quem descobre, dia após dia, que não é preciso nada além do essencial. O ser essencial.  

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Será que ela não vê?

Imagem: Gerd Altmann, por Pixabay

Como é possível que ela não veja o que está fazendo com a própria vida?

A pergunta, indignada, vinha de uma garota preocupada com sua amiga, segundo ela cega de paixão por um rapaz que não a respeita, sai por aí com mil outras garotas e só será capaz de fazê-la sofrer. Seu questionamento vinha carregado com um misto de preocupação, raiva do que ela acreditava ser uma “cegueira” da amiga e angústia por sentir que não podia ajudá-la. A amiga não havia solicitado sua ajuda.

É possível que a amiga não veja o que está fazendo com a própria vida. É possível também que veja… por outro ponto de vista. O ponto de vista da amiga. É possível até mesmo que aquela garota, angustiada e irritada com o problema de sua amiga, não faça a menor ideia da amplitude do olhar ou mesmo das intenções dessa amiga.

Por mais que a gente acredite estar vendo a cena do alto da montanha, se dando conta de que a outra pessoa está perto demais do objeto para conseguir observá-lo por inteiro, não é impondo o nosso ponto de vista ao outro que teremos a sua atenção. Se a gente mete a outra pessoa dentro da nossa caminhonete para levá-la ao topo do morro, de modo que ela possa perceber a amplitude da cena, é provável que ela faça todo o percurso de olhos vendados e retorne a pé, cega de raiva e sem vontade de voltar a falar conosco.

Se a gente acredita que pode ajudar, é mais gentil perguntar se a outra pessoa precisa de ajuda.

Mas eu sei que ela vai se machucar e depois virá atrás de mim, arrasada.

É possível que aconteça. E nesse momento talvez seja possível ajudá-la.

Mas vou esperar que ela se esborrache??? Que sofra??? Isso não é sadismo???

Ela realmente acreditava que poderia impedir o sofrimento da amiga. A gente sempre acredita. As mães então… essas costumam ter certeza de que poderão forrar o chão com espumas para que seus filhos jamais se machuquem. Além de acreditarem que suas visões são sempre mais amplas que as deles.

No entanto, os caminhos e as escolhas são individuais. Algumas pessoas fazem escolhas menos dolorosas, ou aprendem a encontrar lugares mais tranquilos dentro delas mesmas à custa de menos esforço. Outras vão cair e se ferir muitas vezes até se darem conta de que a vida poderia ser mais leve. E algumas chegarão muito perto da morte sem jamais se darem conta disso.

Então eu não posso fazer nada?

Tenho pra mim que pode. Acho que sempre podemos fazer alguma coisa. Talvez não o que gostaríamos de fazer. Mas, sim, sempre podemos fazer alguma coisa. E a primeira coisa que podemos fazer é entender o outro no lugar onde ele está. Experimentar seus óculos, talvez. Tentar olhar o mundo da maneira como o mundo aparece pr’aquela pessoa. Entender se ela sofre ou se somos nós que estamos a lhe antecipar o sofrimento. Fico achando que a gente não deveria antecipar o sofrimento do outro. Talvez oferecer nossa presença silenciosa, aberta e acolhedora seja o melhor que podemos fazer. Desde que o outro esteja também aberto para essa presença.

Será que ela gostaria que eu a convidasse para um café com bolo, sem julgamentos e com a alegria que a gente costumava ter nos tempos do colégio?

É possível que sim. Mas também pode ser que não.

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Por favor, não se esqueçam de que há uma pandemia lá fora

Imagem: Pixabay

Algumas pessoas estão redescobrindo pequenos prazeres durante esta quarentena. Tem gente revelando talentos incríveis na cozinha. Tem gente finalmente encontrando tempo e disposição pra se sentar no chão e brincar com os filhos. Tem gente se sentando pra conversar no fim do dia. E é, de fato, maravilhoso que a ameaça de um vírus que pode nos matar, repentinamente, a todos, possa nos devolver uma vida da qual jamais deveríamos ter aberto mão. Ainda assim, eu gostaria de sugerir a cada um que, de rompante, foi tocado pela certeza absoluta da impermanência: dediquem-se aos prazeres, mas, por favor, não se esqueçam de que há uma pandemia lá fora.

A minha porta de entrada para o budismo foi a primeira nobre verdade: “O sofrimento existe”. Sidarta Gautama, o Buda histórico, não disse que o sofrimento dignificava as pessoas ou que fosse necessário sofrer. Pelo contrário. Ele deu mais de 800 mil ensinamentos para ajudar as pessoas a se libertarem do sofrimento. Mas não é possível que a gente se liberte daquilo que nega. A gente não se liberta daquilo que finge que não existe.

Pois bem: é por isso, precisamente por isso, que eu peço a quem se sentiu tocado pela quarentena imposta por essa pandemia que jamais se esqueça da pandemia. Se a gente não entender que o sofrimento existe, não haverá sequer o desejo de se libertar do sofrimento. Perdoem-me usar aqui as referências do budismo, mas é que elas me são bastante caras e, acredito, ilustrativas para o momento.

Sidarta Gautama era um príncipe. Vivia, de certo modo, numa quarentena nababesca imposta por seu pai, que queria impedir o filho de entrar em contato com qualquer tipo de sofrimento. Por isso, ele não podia ultrapassar os muros do castelo. Mas parece que ele tinha intenção de furar aquela bolha e entender a vida para além dos muros. Um dia fugiu, viu as pessoas que estavam do lado de fora e compreendeu a primeira nobre verdade: “o sofrimento existe”.

Sua vida, dali em diante, foi a busca de um caminho que qualquer pessoa pudesse seguir para se libertar de todo o sofrimento. Tenho pra mim que ele conseguiu. Jamais pela negação. Se a gente nega que existe sofrimento lá fora, quando ele por ventura nos bater à porta não conseguiremos manter a tranquilidade. É preciso se familiarizar com a paz diante de todas as intempéries que parecem existir somente para nos roubar a paz. E a gente não consegue fazer isso se apenas ignorar a guerra.

Então, é assim: o sofrimento existe. Há uma pandemia lá fora que nos obriga a ficar em casa. E para nós, que temos a possibilidade de ficar em casa – alguns realmente não têm –, talvez esta seja a melhor oportunidade de nossas vidas para descobrir que ficar em paz e lidar tranquilamente com quaisquer circunstâncias que nos apareçam só depende de cada um de nós. É a grande chance que temos de fazer a nossa metamorfose (pra quem leu o último texto, informo que sim, é possível que eu esteja me tornando repetitiva…rs).

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E se for tempo de metamorfose?

Imagem: Pixabay

Pára. Respira. Olha pra dentro. Vê o que é isso que lhe incomoda tanto.

Não posso. Não tenho tempo pra isso. Não vê que tenho muito trabalho? Não percebe quantas coisas preciso resolver a todo minuto? Até queria estar à toa como você.

Como pode um vírus, tão pequeno, parar o mundo inteiro? Como vai ficar a economia? Como as pessoas sobreviverão se não puderem correr como baratas tontas, conferindo a todo instante os seus relógios de pulso?

Não sei. Sei que se não pararem, elas irão morrer. Ou semear a morte entre os seus.

Vou faxinar a casa. Fazer um curso de design gráfico pela internet. Maratonar umas séries pela Netflix. Se bem que as crianças em seu ensino EAD, somado ao fato de que tenho infinitas reuniões importantíssimas e inadiáveis pelo Zoom, não me dão tempo a perder com futilidades.

Experimente parar. Respirar. Olhar pra dentro.

Diminuiram o volume do meu teletrabalho. Estão cogitando reduzir salários. O país está parado. Já passa da hora de voltarmos às ruas e exigir o nosso direito de trabalhar. Querem nos roubar o direito de trabalhar.

Será que não é hora de respirar um pouco? Agora há tempo. Será que é mesmo necessário seguir nesse moto-contínuo? Nessa corrida incessante sem saber para onde?

Não suporto mais ficar em casa. Me cansei dos filmes. O trabalho diminuiu. O medo do vírus me assombra. O silêncio me oprime. Sinto falta do barulho. Sinto falta do trânsito. Da minha agenda lotada. De tudo que jamais me deu tempo pra respirar. É insuportável respirar.

Apenas tente. Você ainda não respirou. Ainda não parou. Não sabe como é. O que pode ser tão assustador se você está em casa e ainda pode pagar pela sua comida? Inspira, expira. O vírus está lá fora. Você ainda pode respirar com facilidade dentro de casa. Vamos. Experimenta. Há uma paz com a qual a gente frequentemente perde a intimidade, mas que, uma vez reconhecida, nunca mais se quer abandonar. Esquece agenda. Esquece filmes. Pára. Inspira. Expira. E se ainda der tempo de transformar essa quarentena na metamorfose que você sempre desejou? Pára um pouco. Escuta o que o silêncio tem a te dizer.

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Feliz ano novo

Para Júlio César

Imagem: Pixabay

Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz

Acho que eu tinha 14, ou talvez 16 anos, quando rodopiava pela casa entoando, desafinadamente, essa canção do Chico. É comovente essa fé inabalável que os adolescentes depositam no futuro, não acham? Tudo cabe no futuro de um adolescente. Todas as possibilidades existem.

Aí, um belo dia a gente acorda com um emprego que acredita ser não o melhor, mas o único que podemos ter, e um relacionamento que juramos que só a morte poderá encerrar. E passamos a crer que já somos velhos demais pra aprender coisas novas, nos arriscarmos em novos projetos, viajarmos para destinos desconhecidos ou mudarmos de opinião.

E quando a gente pretende se cristalizar nesse papel de que tudo chegou onde deveria chegar ela surge: ah, a impermanência! Sacode tudo e nos mostra que não podemos nos agarrar na carreira sólida, no casamento estável, na casa própria decorada com esmero, nas viagens anuais para a praia, na família que parece tão perfeita naquela foto do último Natal… A impermanência exige reticências.

Brigar com esse turbilhão que implode os alicerces cuidadosamente construídos ao longo dos anos em que nos empenhamos para criar um futuro não é uma boa escolha. É briga ruim, como diria uma amiga minha. Agarrar-se aos escombros também não ajuda muito.

Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúme
Hoje contei as estrelas
E a vida parece um filme…

Acreditar em outros futuros, abrir-se para novas possibilidades e entender que cada vez que um castelo de areia se desmancha estamos diante da encantadora possibilidade de erguer um ainda mais bonito me parece uma escolha mais divertida.

Para este 2020, desejo a você e a mim muito mais do que esses castelos incríveis que certamente vamos construir: quero que a gente nunca se esqueça de que mesmo as construções mais estonteantes são feitas de areia. E que disso é feito o nosso bem mais precioso: a liberdade de criar e recriar futuros sempre que a realidade parecer excessivamente sólida para nos oferecer outras possibilidades. Nós somos a possibilidade.

Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente
Eu não fui feliz…

  • CLIQUE AQUI pra ouvir Sentimental, a canção do Chico Buarque, na voz de Zizi Possi.

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Recalculando a rota

Para Márcia Baja

Imagem: Pixabay

Na semana passada, uma mulher chinesa quase morreu ao sofrer um infarto enquanto ajudava seu filho a fazer a lição de casa. Pelo inusitado da situação, o caso virou notícia em jornais do mundo inteiro (confira os links no final deste texto). A mulher disse que sentiu muita raiva e “teve vontade de explodir” porque não conseguia fazer o filho pequeno entender a questão encaminhada pela professora.

Decidi falar desse assunto, que não me sai da cabeça desde que li a notícia e a repercussão do fato pelas muitas mães que fazem parte do meu círculo, porque considero verdadeiramente preocupante o nível de estresse sob o qual a gente tem vivido.

Eu não me lembro de ter a ajuda da minha mãe para fazer o para-casa do 3º ano. Não acho que as mães não devam ajudar seus filhos, caso sejam solicitadas. Por favor, não é isso. Só fiquei pensando no que leva uma moça de 36 anos a infartar porque o filho não entendeu a lição. No que nos leva a querer controlar a vida e as suas circunstâncias de tal modo que se uma criança não nos dá a resposta que acreditamos ser necessária “temos vontade de explodir”.

É disso que trata este texto. Dessa ilusão que temos de que tudo pode ser controlado. Algumas crianças vão repetir de ano ao longo de sua vida escolar. Alguns de nós vão adoecer no próximo ano. Algumas pessoas que amamos vão partir antes do que esperamos (esperamos?). Alguns de nós vão perder o emprego. Alguém vai se separar. Alguém vai trair e alguém será traído. Não estou desejando coisas ruins a ninguém, mas é assim, desse jeito, que a vida acontece. Não apenas a sua vida. A vida de todos nós.

Acontece que planejamos cada vez mais o nosso futuro e suportamos cada vez menos o que não estava nos nossos planos. “Tentei explicar a ele várias vezes, mas ele não me dava a resposta correta”, a chinesa que preferiu não ser identificada contou ao jornal. “Comecei a ficar com raiva e sentindo que explodiria. De repente, eu me senti tonta e com dificuldade para respirar.” Ela certamente se esforçou muito para ensinar aquela lição ao filho. E se você tem uma criança em idade escolar deve entender exatamente o que estou dizendo.

Nós geralmente esperamos que a vida nos ofereça uma farta colheita quando pensamos ter-nos dedicado à boa plantação. Mas a geada também assola a lavoura de quem trabalhou duro. Ninguém tem culpa. Apenas acontece assim. Talvez o garoto chinês acabe entendendo a questão proposta pela professora. Talvez não. Mas ele certamente não queria que sua mãe corresse risco de vida.

Nem sempre vamos conseguir “enfiar na cabeça” de uma criança de 8 ou 9 anos os conceitos que acreditamos fundamentais para a vida. Nem sempre vamos conseguir manter o emprego que nos garante o sustento. Nem sempre, apesar das dietas e exercícios regulares, vamos ter a garantia de nos manter saudáveis. Nem sempre vamos conseguir adiar o nosso encontro com a morte.

Quando digo que preciso abrir mão do controle, as pessoas me falam que isso é muito difícil. Mas a gente não tem controle de nada: abrir mão é simplesmente reconhecer isso. O ponto é que nem esse reconhecimento é capaz de tornar essa tarefa menos difícil. Ela é, de fato, dificílima. A não ser para as crianças. Uma das minhas filhas, dia desses, diante da minha aflição ao vê-la tomar suas próprias decisões (essa coisa que a gente costuma chamar de “se arriscar”), me disse apenas: “Me deixe ir, mãe. Me deixe errar. Pode ficar tranquila porque eu sei gritar e se der errado eu volto correndo e conto tudo pra você”.

Talvez eu nem esteja aqui pra ouvir todas as coisas que vão “dar errado”. Meu desejo e minhas ações meticulosamente calculadas não podem garantir que tudo estará sob controle. Entretanto, pra aumentar a chance de estar disponível pra ela, é prudente melhorar minha alimentação, fazer algum exercício físico e diminuir a tensão. O que me faz lembrar de uma das pessoas mais lindas e sábias que já tive a honra de conhecer: Marcia Baja, yogini e tutora do CEBB. Foi dela que ouvi uma vez que o “método Waze” é uma boa maneira de lidar com a vida. Quando a gente erra o caminho, o aplicativo não berra nem diz que tudo está perdido. Ele apenas avisa: “Recalculando a rota”. E seguimos.

Links para algumas matérias sobre o caso da mãe chinesa:

Cultura de paz

A vida em mandala

Foto: Francklin Celso Vitor

O planeta não precisa de mais pessoas bem-sucedidas, o planeta precisa desesperadamente de mais pacificadores, curadores, restauradores, contadores de histórias e amantes de todos os tipos.

DALAI LAMA

O mundo geralmente se organiza em bolhas, mas é nas mandalas que ele floresce. Penso que não há felicidade possível dentro das bolhas onde a gente teima em permanecer para jamais precisar suportar o encontro com o outro, o diferente, o que não pensa igual, o que não viveu as mesmas experiências, o que não enxerga o mundo sob a mesma lente que nós. Dentro das bolhas, a gente finge que se protege, mas invariavelmente encontra a extinção ou o colapso daquela bolha e acaba se pegando novamente em desespero, à procura de uma nova bolha quentinha pra se alojar e se esconder do mundo que pulsa do lado de fora, alheio aos anseios de todas as bolhas.

As mandalas permitem que as bolhas se toquem, se entrelacem e, eventualmente, se dissolvam. Permitem o convívio das diferenças. Dos que pensam diferente. Dos que talvez não queiram o mesmo que nós. Dos que não crêem nas nossas mesmas crenças. E, no entanto, vivem e sustentam este mesmo planetinha que todos habitamos.

Não há muito conforto na mandala. Ao menos, não à primeira vista. Ela comporta divergências e não é muito cômodo lidar com isso. Passado algum tempo, no entanto, as pessoas sentem-se inteiramente à vontade com a ideia de uma roda que cabe todos os olhares – sob todas as lentes –, que cabe jeitos distintos de agir e de sentir, que inclui os sonhos individuais nos grandes sonhos coletivos.

Há problemas pequenos, médios, grandes e enormes nas bolhas e nas mandalas. Pode ser que não existam além das mandalas, mas ainda não conheço esse lugar (ou não-lugar). Permitir que as diferentes bolhas integrem um mesmo grande círculo me parece um caminho interessante. As conversas em roda, as ideias divergentes, os momentos em que cada um decide ceder um pouco pra que alguma coisa, de repente, ande: não há nada de muito grandioso nessas pequenas rodas que se formam em alguns cantos. Mas há pequenas mudanças, pequenas curas, pequenas conquistas de paz. Beija-flor levando água no bico pra apagar o incêndio na floresta… Quem sabe alguém gosta da ideia e eles começam a se multiplicar por aí?

A foto deste post foi feita durante o estágio realizado nas comunidades da Amorita, em Itabira, pela turma 15 do curso FHB – Formação Holística de Base, realizado pela Unipaz BH, e este texto foi inspirado nessa experiência.

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Faça uma cara feliz

Divulgação

Aclamado no Festival de Veneza, de onde saiu com um Leão de Ouro, o filme Coringa enfrentou duras críticas nos EUA, sob a acusação de incitação à violência e apoio aos atos criminosos que acontecem também fora das telas. A fita estreou no Brasil hoje e eu fui assistir. Não acho que incita a violência. Tampouco justifica atos injustificáveis. Mas é profundamente incômoda porque nos obriga a olhar para a violência desde a sua origem. O filme nos apresenta um vilão incomodamente humano, demasiado humano (perdoe a citação infame, Nietzche).

Mais que um palhaço assassino, o arqui-inimigo do Batman, é uma criatura profundamente atormentada. Seu riso não tem graça nem alegria. Sua vida é uma piada de péssimo gosto.

“Faça uma cara feliz.”

A frase é uma ordem dada ao palhaço, sofredor desde que se entende por gente.

“Sorria.” Ele repete a si mesmo, convencido de que deve levar adiante a ingrata missão de oferecer alegria ao mundo, ainda que se sinta frequentemente tratado com desprezo e violência.

Por algum motivo, a gargalhada neurótica, que o próprio personagem anuncia ao mundo como doença, e a insistência na alegria como obrigação imposta a quem foi proibido de compreender a própria dor, me lembrou essa positividade que tentamos nos impor, ainda que não sejamos capazes de acreditar na sua verdade.

Atormentado, entre outras coisas, por uma risada sobre qual sente que não exerce nenhum controle, o palhaço vilão não encontra escuta nem na terapia imposta pelo serviço social. Sem qualquer tipo de acolhimento para as dores que aprendeu a sufocar sob uma cara feliz, ele vê a sombra se impor à luminosidade obrigatória do sorriso de modo sarcástico.

E a sombra, quando sufocada, se impõe de forma gigantesca e violenta. O sofrimento existe, quer você queira ou não olhar pra ele. E é por isso que é melhor olhar, acolher e arrumar um lugar para alojá-lo dentro de si. Se houver espaço para as lágrimas e as caras tristes, o sorriso pode brotar da luminosidade que só se faz presente por causa da sombra. Não será necessário pintá-lo com tinta… ou com sangue.

Cultura de paz, terapias holísticas

Fique na pergunta

Para tia Lelena (in memorian) e sua filha Juliana Jayme, minha amiga e comadre, que nunca me deixou esquecer a pergunta de sua mãe

Imagem: Pixabay

Como sabeis que é má sorte?

Com essa pergunta, a minha muito sábia tia Lelena costumava acalmar o coração dos sobrinhos e dos filhos quando o chão parecia se abrir sob os nossos pés. Aflitos e ansiosos, nós geralmente queremos respostas. Mas as respostas não acalmam. Elas simplesmente fecham todas as possibilidades. As perguntas ampliam porque são abertas, plenas de possibilidades. Não sabemos se é má sorte. Tampouco sabemos se é boa sorte. Não sabemos, apenas. Todas as possibilidades estão aí. Todos os caminhos. Todas as escolhas.

E, no entanto, nós que tanto clamamos por liberdade geralmente vivemos ávidos pelas respostas fechadas, certeiras… aprisionadoras.  Queremos a certeza de que nada irá nos surpreender. De que a vida vai fluir segundo os nossos planos, sem o incômodo das intempéries. Tornamo-nos ansiosos ante a menor possibilidade de que os nossos planos se frustrem. E não nos damos conta de que o controle da vida não é simplesmente impossível. Ele é também indesejável.

A má notícia é que você está em queda livre.

A boa notícia é que não há chão.

Eu ainda não havia lido essa citação de Chogyam Trungpa quando tinha sonhos recorrentes com uma queda infinita no que parecia ser aquele túnel em que Alice despenca para a toca do coelho apressado. A ideia de impermanência era apavorante pra mim. Eu me agarrava a qualquer coisa que parecesse sólida. E descobria sempre, desolada, que “tudo o que é sólido desmancha no ar” (sim, é a segunda vez que faço referência ao título do livro de Marshall Berman neste blog…).

Esses dias me lembrei da pergunta de tia Lelena. E entendi que ela era muito mais sábia do que eu podia supor. Nos inúmeros caminhos que tomei ao longo desses 45 anos, uma vez fui estudar filosofia. Comecei uma pós-graduação na UFMG, mas não concluí. Daqueles seis meses de curso, ficou apenas a certeza de que os maiores filósofos eram as crianças, capazes de olhar para o universo inteiro com um grande olhar perguntador e nenhuma certeza. A maternidade, que só fui viver bastante tempo depois, confirmou a minha suspeita. As crianças são mesmo muito mais sábias que todas essas pessoas grandes cheias de repostas.

– Como sabeis que é má sorte?

Como sabeis que tudo já está pronto? Como sabeis que não há nada além dessa solidez que tu podes tocar? Como sabeis que não há esperança?

O livro mais encantador que estou lendo – costumo ler mais de dois ou três ao mesmo tempo e por isso demoro a terminar…rs – chama-se O poder de uma pergunta aberta, de Elizabeth Mattis-Namgyel (Editora Lúcida Letra). Me deu vontade de citar um trechinho dele:

A vida é abudante. De fato, a vida é tão comovente, curiosa, triste, excitante, assustadora e agridoce que às vezes chega a ser insuportável. Mas, como seres humanos, precisamos nos perguntar: ‘Devemos rejeitar a abundância da vida?’. Rejeitar ou não rejeitar – estar aberto –, eis a questão. E esse tipo de questionamento nos leva ao coração da investigação pessoal e nos ensina a acolher plenamente nossa humanidade.

E essa abundância da vida, tão mais farta e ampla que todos os conceitos e espaços em que tentamos encaixotá-la, me leva também às Barras de Access, uma das técnicas terapêuticas que utilizo em meus atendimentos. Quando corremos as barras, a gente também não se preocupa com as respostas, mas frequentemente focamos apenas numa pergunta aberta:

– O que mais é possível que eu ainda não considerei?