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Terapias

A flor de lótus e o cogumelo

Foto: Júlio César Rezende

Aos 14 anos eu pensei em fazer a minha primeira tatuagem. Um cogumelo colorido, no tornozelo. São José das Noções, protetor da reputação das adolescentes maluquinhas, me fez tremer de medo da agulha ao ver a criatura que estava sendo tatuada na kombi, onde eu pretendia me desenhar com aquilo que se parecia um pouco com a casinha dos Smurfs, e eu acabei chegando aos 44 com a pele virgem.

Ano passado, 30 anos depois desse episódio da kombi, numa sangria de escambar todos os móveis e enfeites que não combinavam com o novo novo apê, acabei trocando um espelho com moldura de mosaicos pela minha primeira – e até hoje única – tatoo. Confesso que a atitude não foi muito menos impulsiva do que teria sido naquele primeiro episódio, já que a minha intenção inicial era trocar o espelho por um botijão de gás. O desenho, no entanto, mais que certeiro era premonitório. A flor de lótus, nascendo na ponta de um emaranhado unalome, delicadamente desenhada pela agulha de Mari Tallarico, era a primeira contração do parto de uma cria gestada por muitos anos debaixo da lama.

Toda vida de gente é meio parecida, de modo que quase todo mundo que ultrapassa os 40 tem uma boa noção do que é se debater num rio enlameado com a clara sensação de que a qualquer momento será tragado por uma correnteza e nunca conseguirá voltar à superfície. E é nesse embate louco que a gente geralmente adquire a força necessária pra seguir nadando, mesmo contra a correnteza, e mantendo a cabeça pra fora da água. Inclusive porque encontra milhões de braços pra nos acolher pelo caminho (gratidão eterna a todos os amigos de todas as fases da vida!).

Mas foi durante a minha formação em AIM – Abordagem Integrada da Mente, com o psiquiatra e neurocientista Diogo Lara, que eu realizei o movimento inverso. Aceitei um convite para mergulhar profunda e rapidamente no rio enlameado em cuja superfície sempre me esforcei pra ficar. Mais que isso: fui convidada a tocar o fundo desse rio. “Se você toca o fundo do rio, toma impulso para subir”, Diogo disse. E eu acreditei. Que bom que acreditei.

Perdi o medo do rio, dos mergulhos e da lama. Minha flor de lótus interna é ainda um botão, mas já se vê que terá pétalas muito viçosas e vida longa. Aprendi a fazer os mergulhos necessários pra entender que o unalome é indispensável à flor. Sem percorrer o caminho emaranhado que lhe dá sustentação, minha flor de lótus não teria força pra emergir no meio da lama. “Acolha tudo. Acolha esse medo. Acolha essa raiva”, era a voz suave da terapeuta Daniela Franzen, que estava como assistente de Diogo Lara. Ao final, tudo estava leve. Não havia mais medo. Não havia mais raiva. Energia estável. Tranquilidade.

Meu unalome tem muito mais emaranhados que esse desenho lindo feito pela Mari nas minhas costas. E eu entendo que ainda há mergulhos por serem feitos. Sem medo. Se existe amparo e acolhimento para as emoções, tudo bem que elas brotem. Tudo bem que derramem até que se estabilizem. Tudo bem que haja lama, quando a gente passa a ter a certeza de que uma flor de lótus uma hora há de brotar por cima dessa lama, com a energia suficientemente estável pra que gente não tema mais se afogar.

Em tempo: o medo de agulhas me salvou de ter uma réplica da casinha da Smurfete impressa no tornozelo direito. Até que ele cumpriu bem o seu papel, né? 😉

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Cultura de paz

Ser leve precisa ser uma escolha… leve

Imagem: Pixabay

“Eu não aguento mais! Eu juro que estou tentando ser uma pessoa leve! Eu acordo às 5h pra meditar, saio às 5h40 pra fazer ginástica, faço cursos de Disciplina Positiva pra tentar lidar da melhor maneira possível com aqueles capirotos que tenho lá em casa e juro por tudo que há neste mundo que tenho me empenhado como poucos para implementar todas as regras da CNV – Comunicação Não-Violenta em todos os lugares onde sou obrigada a estar. Mas eu não aguento mais!”

Eu ouvi o relato daquela moça. Ela realmente queria uma vida mais tranquila. E estava se empenhando como poucos. Ela havia escolhido ser leve.

_ O que é ser leve?

_ …

Não sei. É estar sempre tranquila, não me preocupar tanto com as coisas. É não me irritar tanto quando não consigo atender às demandas do meu chefe, da casa, das crianças…

Não sei. Acho que não sei o que é ser leve.

_ Você gostaria de não se irritar, mas se sente sobrecarregada, é isso?

_ Sim. Eu sempre levo trabalho pra casa. Depois que as crianças dormem, muitas vezes fico até 1h, 1h30 da manhã trabalhando. E às vezes depois disso ainda cuido de preparar minha marmita com comidas saudáveis pra garantir que não me contamine muito.

_ E acorda às 5h pra meditar e ir à ginástica?

_ Sim… Tenho feito isso.

Ela estava exausta. Custara a encaixar na sua rotina as atividades que acreditava que lhe trariam leveza. Não relaxava nunca porque seus horários eram milimetricamente cronometrados pra que ela conseguisse fazer tudo o que se propusera. E a primeira pergunta que havia me feito era se podia deixar o celular ligado durante a sessão de Reiki porque o chefe poderia ligar. O Reiki também era uma tentativa de tornar-se leve, eu entendi.

_ Você já encerrou o expediente hoje?

_ Sim.

_ Eu não acho uma boa ideia deixar o celular ligado.

_ Ok.

Ela consentiu, um pouco contrariada. Demorou meia hora pra permitir que seu corpo relaxasse um pouco.

Ser leve era uma escolha pesada na vida corrida e atribulada daquela moça. E ela estava a beira de um colapso.

A Disciplina Positiva é uma boa ideia para se contrapor à educação verticalizada que conhecemos. Os preceitos da CNV podem ajudar bastante na comunicação com as pessoas e eu não tenho a menor dúvida de que a meditação é um caminho precioso na vida de qualquer ser humano. Mas a escolha por uma vida leve precisa, ela mesma, ser leve.

Existe uma sabedoria que antecede as elaborações e as regras. Seu corpo pede pra continuar dormindo se você trabalhou por quase 18 horas no dia anterior. Acordar às 5h pra meditar num dia como esse talvez não seja uma boa ideia. E se você está exausta diante de uma criança que berra – talvez porque também esteja exausta –, é possível que silenciar e acalmar o seu próprio coração antes de decidir o que fazer lhe dê pistas melhores do que tentar recordar, sob os gritos do filho, todos os preceitos do livro de Disciplina Positiva que você terminou de ler no mês passado.

Com o celular desligado e uma música suave, a moça recebeu o Reiki e saiu do espaço de atendimento com um semblante mais tranquilo. Desejei, do fundo do meu coração, que ela iniciasse seu terceiro turno com menos preocupações.

Interromper a rotina, no meio do dia para receber Reiki, ou uma massagem, pode ser um bálsamo para seguir mais leve. Mas é preciso desligar o celular. E é preciso desligar também esse encadeamento incessante de pensamentos, que está constantemente criando realidades e formando conceitos sobre absolutamente tudo e todos. Parar, somente. E aos poucos ir aprendendo a parar mesmo durante o dia.

“É difícil ser leve”, a moça afirmou.

Não devia ser, mas é. Aprendemos a carregar tanto peso, tanta bagagem, tanto conhecimento… Sim, é difícil deixar essas malas pesadas e se permitir voar um pouco. Mas é uma boa coisa. Palavra de quem carrega duas mil malas lotadas de pedra e tijolo, mas sente-se bastante feliz quando, no meio do dia, solta cada uma delas e diz: vou ali voar um pouco dentro do meu silêncio. E que já anda descobrindo que esse lugar de silêncio é o melhor lugar do mundo.

terapias holísticas

Crise de cura

Imagem: Pixabay

O que negas, te subordina. O que aceitas, te transforma.

(Carl Gustav Jung)

“Tive uma noite dificílima depois da sessão de Reiki. Me arrependi de ter vindo aqui na semana passada.” O relato era da minha cliente. “Ando chorando a toa desde que estive aqui. Não durmo bem. Todos haviam me dito que o Reiki melhorava o sono e diminuía a ansiedade. Foi por isso que vim.”

Perguntei a ela há quanto tempo não chorava antes daqueles dias. “Não me lembro. Muito tempo.” Era preciso explicar-lhe como funciona uma crise de cura. Quando se varre a poeira pra debaixo do tapete, não é muito cômodo decidir fazer uma faxina. Às vezes a poeira chega a desencadear uma crise de asma. Não é que a poeira não estivesse ali. É que antes não se via.

Rosângela sofria de ansiedade, se irritava facilmente com as pessoas e chegou ao espaço terapêutico pensando em deixar, a um só tempo, o marido e o emprego. Mas, conforme me relatava naquele segundo encontro, não era alguém que se debulhasse em lágrimas como vinha fazendo nos últimos dias.

Ela se definia como uma pessoa forte, decidida e de gênio indomável. Brigava por seus direitos e por qualquer coisa que considerasse errada no mundo. Dormia mal, era vista pela família como excessivamente controladora e não tinha muita paciência para arroubos emotivos.

“Você era uma criança segura e forte?”, perguntei.

“Não. A vida me tornou forte. Eu era uma criança tola, chorona. Uma menina que não sabia brigar e vivia querendo pacificar o que não podia ser pacificado.”

Há tantas coisas que não conseguimos pacificar. Não porque não é possível, mas porque nem sempre temos recursos para isso. Tantas guerras que gostaríamos de impedir. Tantas brigas que gostaríamos de não ver. Tanta violência que desejaríamos ter impedido.

Não sei quais eram as guerras que Rosângela gostaria de ter pacificado. Sei, no entanto, que represá-las não impediu que essas guerras seguissem lhe tirando o sono e a paz pelos tempos vindouros. Não impediu que, de tempos em tempos, seus canhões estourassem dentro do peito da mulher, agora forte.

Ela estava irritada com o Reiki. No lugar dela, eu também estaria. Afinal, tudo o que ela havia amassado e apertado pra esconder em gavetas que não revelassem toda a fragilidade que lhe parecia tão má, de repente resolvera escorrer pelos olhos sem nenhum pudor.

O que ela nem imaginava é que as lágrimas que não haviam lhe dado sossego durante uma semana eram o antídoto para a dor que, em algum momento, ela não poderia mais suportar. Não se pode controlar uma dor com analgésicos a vida inteira. É preciso vivê-la, entender sua origem, olhar nos olhos dela e, só então, dizer que ela pode ir.

Minha cliente acabava de olhar nos olhos da sua própria dor. Acabava de entrar em contato com a menina que gostaria de pacificar o mundo e sentira-se incapaz. Acabava de entender que podia pacificar o seu próprio mundo. Não nos vimos muitas vezes depois daquele dia. Mas ela me mandou uma mensagem para contar que finalmente dormia melhor, que decidira dar uma nova chance ao emprego e também ao marido. E que, qualquer dia desses, gostaria de passar no espaço terapêutico porque achava que o Reiki era mesmo muito relaxante.

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Flexibilidade que cura

Imagem: Pixabay

“O Reiki é flexível como bambu.”

A frase, repetida diversas vezes pelo mestre que me iniciou nos três níveis do Reiki – e também no mestrado –, me encantou de saída. Sempre me encantaram os corpos, os caminhos e as ideias flexíveis. Adaptar-me a quaisquer circunstâncias que a vida apresente, tal e qual a água, que toma a forma do copo ou da jarra, para depois se revelar livre e fluida e se derramar onde quer que caia, é uma espécie de meta pra quem sempre acha um jeito de incluir Rock Water – o remédio de Dr. Bach, dedicado às pessoas rígidas – em todas as suas formulações florais.

A flexibilidade do método criado pelo japonês Mikao Usui é um bálsamo para a minha própria rigidez. É a cura pros meus torcicolos, dores de cabeça tensionais e ideias fixas. A energia do Reiki sabe por onde deve seguir. Permitir que ela flua por meio de mim para os corpos dos meus clientes é um percurso mágico, que cura a mim mesma enquanto trata do outro. Há um script. Sempre há. Mas ele muitas vezes se perde no exato momento em que minhas mãos tocam o corpo do outro e sentem o Byosen. A energia encontra o seu próprio script.

O Reiki aceita cromoterapia, aromaterapia, manobras de shiatsu, florais de Bach… Aceita crenças e não crenças. “O Reiki é flexível como bambu.” Para algumas pessoas, receber Reiki é fonte de um relaxamento profundo. Pra outras, é um percurso de transformação. Pra mim, é um caminho de cura. E é por isso que resolvi falar dele hoje.

O aval da ciência

Incluído desde 2017 entre os procedimentos cobertos pelo SUS, o Reiki promove o relaxamento, diminui o stress psicológico e atenua dores inclusive em pacientes de câncer. Um estudo realizado pelo psicobiólogo Ricardo Monezi, da Universidade Federal de São Paulo, mostrou que a terapia ajuda também a combater o tumor. Ele aplicou o Reiki em ratos e, na sequência, analisou suas células de defesa. “Em comparação com o grupo de controle, esses animais apresentaram um sistema imune mais agressivo contra a enfermidade. E nem precisamos falar que bichos não acreditam em Reiki.” (Para saber mais sobre essa e outras pesquisas, clique aqui)

Cultura de paz

O Lama e o Economista*

Foto: Divulgação/CEBB

Redes compassivas como caminho para tempos difíceis. Esse é o tema da palestra que o Lama Padma Samten, do Centro de Estudos Budistas Bodisatva, vai realizar em Belo Horizonte no fim deste mês. Olhei pra esse tema e me lembrei da primeira vez que o ouvi afirmar que “a base que sustenta o mundo não é a economia, mas a compaixão”. Confesso que essa fala me causou estranhamento e até um certo incômodo. Como assim? Não é a economia que gira tudo? Não é ela quem determina os que sobrevivem e os que sucumbem nesta roda sustentada pelo capital?

Em ocasiões distintas, nos muitos vídeos que já assisti em seu canal no Youtube, tornei a ouvir essa fala dele outras vezes. A cada vez, ela parecia fazer mais sentido. Redes compassivas de fato nos sustentam, especialmente em tempos de crise. E, se aprendermos a organizá-las melhor, veremos que nossa preocupação com os seres é capaz de garantir a sobrevivência de cada um de nós. Estou convencida disso.

O livro mais recente do Dalai Lama, dedicado aos jovens e intitulado Façam a revolução, diz alguma coisa parecida com isso (leia mais aqui). O que de fato pode nos salvar é essa união em benefício de todos. Não sei se é exatamente disso que o Lama vai falar. Não perguntei a ele (rs). Mas estou aqui fazendo conjecturas acerca do tema da palestra a que gostaria imensamente de assistir.

O Lama Samten vai oferecer também um mini-curso com um tema que também cai como um bálsamo nas feridas abertas por estes nossos tempos: Lucidez – Transformando confusão em sabedoria. Porque vamos combinar que confusão é o que não anda faltando neste nosso dia-a-dia, não é mesmo? E desconfio que sabedoria pode ser a chave pra lidar melhor com essa roda que parece girar e nos deixar sempre mais e mais perdidos.

Vou deixar aí embaixo os dados sobre os dois eventos com o Lama Samten porque as inscrições já estão abertas e se alguém quiser participar acho que é melhor se apressar pra garantir uma vaga. Se você também ainda não se convenceu de que a compaixão é uma base de sustentação muito mais sólida do que a economia, sugiro que você dê um pulo pelo menos na palestra. Eu não sou muito boa para explicar, mas pode ser que ouvi-lo falar e conhecer outras pessoas interessadas em criar redes que beneficiem um número maior de seres faça os seus níveis de esperança e vontade de mudar aumentarem um pouco. Ou muito. Enfim, eu acho que vale.

Palestra

Redes compassivas como caminho para tempos difíceis

Sábado, 30 de março às 20h
Teatro Santo Agostinho, Rua dos Aimorés, 2679 – Santo Agostinho – Belo Horizonte
Contribuição sugerida: R$ 30

Curso

Lucidez – Transformando confusão em sabedoria

Sábado, 30 de março de 14h às 17h
Domingo, 31 de março de 9h às 12h
Hotel Boulevard Plaza, Av. Getúlio Vargas, 1640, Salão Villa Lobos – Savassi, Belo Horizonte
Contribuição sugerida: R$ 160

CLIQUE AQUI para fazer sua inscrição.

* “O Lama e o Economista” é um título que peguei emprestado de um livro do próprio Lama Samten

Cultura de paz

A carta do chefe Seattle

Imagem por SarahRichterArt na Pixabay

Pensei em escrever um texto para dizer o que ando sentindo em relação à maneira como a gente trata este planetinha. Mas nada do que eu escrevesse diria mais do que a carta do cacique Seattle. Se você já leu, talvez queira reler. Se não conhece, acho que vale a pena. Então é isso. Vou só reproduzir a carta mesmo. E torcer para que a gente possa resgatar um pouco do “selvagem” que espero que exista dentro de cada um de nós.

Pra contextualizar um pouco, vale dizer que essa carta foi escrita em 1855, pelo cacique Seattle, da tribo Suquamish, do estado de Washington, nos EUA, ao então presidente daquele país, Francis Pierce, logo depois de o governo dar a entender que gostaria de comprar o território ocupado pelos índios. Faz mais de um século e meio, portanto. Segue a carta:

O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que, se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.

Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e, depois de exauri-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.

Cultura de paz, mindfullness

De onde vim, pra onde vou?

Mamãe, de onde surgiu o mundo?

– Da grande explosão de um único átomo. Chamou-se Big Bang.

– Então, nós, as plantas, os animais e as coisas viemos todos de um único átomo?

– Viemos. Todos.

Minha pequena filha silenciou. Estava tão atônita quanto qualquer um de nós deveria estar depois de uma constatação dessas. E todos nós, que em algum momento tivemos contato com a Teoria Atômica, sabemos disso. E, no entanto, nos esquecemos. Para vivermos o dia-a-dia, acolhidos pelas certezas absolutas das nossas próprias bolhas, perdemos a visão do todo. Nos esquecemos de que “somos todos um” não é um slogan hiponga. É uma constatação científica. Eu, você, o cachorro que está na sua sala, o gato que vai morrer atropelado na sua rua, a árvore na frente na sua casa e aquele vizinho que você odeia viemos todos, todinhos, de um único átomo. Era nisso que minha filha estava pensando quando silenciou.

– E no que isso vai dar?

A segunda pergunta dela era mais difícil. O universo continua em expansão desde aquela primeira explosão que iniciou a confusão, né? Então a ideia é que vamos continuar nos espalhando até não sobrar muito mais que uma poeirinha. Fiquei pensando se isso seria muito dramático para contar a uma menina de 10 anos. Mas ela achou que não.

– Vai ficar só um vazio então, né?

– É, um vazio. Um imenso e alentador vazio. Calmo. Sereno. Acho que não vai rolar nem mesmo uma poeirinha depois que essa coisa toda se espalhar infinitamente pelo espaço – arrisquei, sem a menor convicção de que estivesse sendo muito científica.

– Ô, mãe. Me explica aqui: se a gente saiu todo mundo do mesmo átomo e no final vai se misturar na mesma poeira cósmica, por que é que, nesse intervalo, em vez de simplesmente curtir, o povo inventa de criar tanto problema, hein?

Aí, quem silenciou fui eu.

Não sei bem se é Índigo, Cristal ou Arco-Íris que fala não… Só sei que acredito neles pra salvar o que ainda existe de mundo antes de a gente virar a tal da poeirinha cósmica.