Cultura de paz, mindfullness

De onde vim, pra onde vou?

Mamãe, de onde surgiu o mundo?

– Da grande explosão de um único átomo. Chamou-se Big Bang.

– Então, nós, as plantas, os animais e as coisas viemos todos de um único átomo?

– Viemos. Todos.

Minha pequena filha silenciou. Estava tão atônita quanto qualquer um de nós deveria estar depois de uma constatação dessas. E todos nós, que em algum momento tivemos contato com a Teoria Atômica, sabemos disso. E, no entanto, nos esquecemos. Para vivermos o dia-a-dia, acolhidos pelas certezas absolutas das nossas próprias bolhas, perdemos a visão do todo. Nos esquecemos de que “somos todos um” não é um slogan hiponga. É uma constatação científica. Eu, você, o cachorro que está na sua sala, o gato que vai morrer atropelado na sua rua, a árvore na frente na sua casa e aquele vizinho que você odeia viemos todos, todinhos, de um único átomo. Era nisso que minha filha estava pensando quando silenciou.

– E no que isso vai dar?

A segunda pergunta dela era mais difícil. O universo continua em expansão desde aquela primeira explosão que iniciou a confusão, né? Então a ideia é que vamos continuar nos espalhando até não sobrar muito mais que uma poeirinha. Fiquei pensando se isso seria muito dramático para contar a uma menina de 10 anos. Mas ela achou que não.

– Vai ficar só um vazio então, né?

– É, um vazio. Um imenso e alentador vazio. Calmo. Sereno. Acho que não vai rolar nem mesmo uma poeirinha depois que essa coisa toda se espalhar infinitamente pelo espaço – arrisquei, sem a menor convicção de que estivesse sendo muito científica.

– Ô, mãe. Me explica aqui: se a gente saiu todo mundo do mesmo átomo e no final vai se misturar na mesma poeira cósmica, por que é que, nesse intervalo, em vez de simplesmente curtir, o povo inventa de criar tanto problema, hein?

Aí, quem silenciou fui eu.

Não sei bem se é Índigo, Cristal ou Arco-Íris que fala não… Só sei que acredito neles pra salvar o que ainda existe de mundo antes de a gente virar a tal da poeirinha cósmica.

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Lobo-lo-bo-lo-bo-lo

Foto: Pixabay

Tem um livro infantil de que eu gosto muito. É um livro de Chico Buarque chamado Chapeuzinho Amarelo. Conta de uma menina que morria de medo do lobo, mas um dia entendeu que lobo, dito assim bem rápido, acabava virando bolo e não metia mais medo em ninguém. Não sei escrever com a poesia do Chico, então estou aqui cometendo a infâmia de resumir a obra desse jeito tosco. Mas acho que todo mundo devia ler o original e presentear às crianças queridas.

Pois bem, estou aqui falando desse livro porque acho que é uma extrema sabedoria que a gente consiga olhar bem de perto pras nossas emoções, até perceber o momento em que elas surgem… porque é exatamente ali que elas desaparecem. As crianças compreendem isso com uma sabedoria admirável. Basta ver as reações que têm ao ouvir a história da Chapeuzinho Amarelo. Nós, adultos, damos tanta solidez aos nossos sentimentos que achamos quase impossível vê-los se dissolverem.

Acordei com o coração meio apertado e uma sensação de ansiedade um tanto inexplicável. Me irritei com o barulho do telefone tocando e já ia pedir que não me dessem bom dia quando me lembrei do livro da Chapeuzinho Amarelo. De onde viria esse sininho de irritação que poderia tocar durante o dia inteiro, azedando todos os meus contatos a partir daquela manhã? Decidi ver se o meu lobo também seria capaz de ser convertido em lobo.

Pedi licença por 20 minutos porque precisava de um pouco de silêncio para espreitar as minhas emoções. De onde vinha aquele aperto no peito tão logo eu me levantara da cama? Eu tinha dormido bem… Silenciei e comecei a perguntar à minha irritação em que momento ela tinha aparecido. Eu havia despertado sem despertador. Não era o barulho do relógio, portanto. Também não eram os vizinhos, que geralmente faziam barulho à noite, mas não pela manhã.

Continuei olhando para aquela irritação, que parecia ter surgido antes mesmo do dia raiar e eu me levantar. Eu havia acordado cerca de duas horas antes de finalmente me levantar e ficara fritando na cama até um horário em que considerei razoável abrir os olhos para finalmente iniciar o dia. Mas por quê?

Na noite anterior, eu tinha trabalhado até tarde e não tinha conseguido terminar minhas tarefas. Dormi pensando no que tinha para fazer. Ao acordar, tinha clareza de que havia tempo para fazer tudo o que era preciso, mas a ansiedade de quem não tinha terminado suas tarefas ainda estava ali.

Olhei pr ‘aquilo e entendi que não havia motivo para me irritar. Nem para estar ansiosa. O dia anterior já tinha terminado. Eu não havia concluído o que havia me proposto e já havia resolvido que estava tudo bem com isso. Tanto que dormi. Agora estava acordada e poderia concluir o que precisava ser feito. Mas não antes de um café. O lobo tinha virado bolo.

Retornei do silêncio e sorri para os meus. “Bom dia, pessoal. Obrigada por me permitirem esse silêncio. Eu estava ocupada em transformar um lobo em bolo.” Ninguém entendeu nada. Mas eu ri. E pensei que devíamos nos ocupar mais de transformar nossos lobos em bolos.

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Ontem, amanhã e… hoje

Foto: Álbum de família

A foto do álbum dos meus 15 anos, que minha mãe resolveu tirar da gaveta agora, quase às vésperas dos meus 45, me trouxe um monte de lembranças. Botei a imagem no Facebook pra lembrar a mim mesma da menina de nariz arrebitado e olhar de Capitu que eu havia me esquecido de um dia ter sido. Será que fui? Quanto será que a gente fantasia das próprias memórias? Quanto será que a gente sonha o passado do mesmo jeitinho que sonha o futuro? E onde é que fica o presente, esmagado entre esse passado romanceado e um futuro sempre incerto?

A menina do nariz arrebitado não existe mais. A mulher com quem me lembro de ela ter sonhado também não existe. Nunca existiu. Mas a menina sonhou muito com essa mulher que que saía por mil estradas dirigindo um carro conversível, com o cabelo ao vento e o violão no banco do carona. Talvez houvesse espaço pra um filho loirinho, chamado Gabriel, segurando esse violão no banco do carona.

Não sei dizer como era o presente daquela menina. Sei dela nas minhas memórias. Não sei se havia presente ou apenas um monte de futuro enganchado num tanto de passado (sim, a gente já tem passado aos 15!). E a verdade é que do presente de hoje também ainda sei pouco. Logo que acordo, me sento por 15 minutos pra entender que a única que coisa que de fato existe é o aqui e o agora. Penso no ontem, no amanhã… mas gentilmente me convido a voltar para este momento. Este. Agora mesmo. Aqui, diante do computador, escrevendo para você que, por algum motivo, parou pra ler o que eu tenho a dizer. Não agora. Em outro momento. O seu momento. O seu agora.

Lidar com o hoje é um exercício. Não sei quanto a você, mas pra mim talvez seja um dos mais difíceis que me propus a fazer. Entender que os personagens que criei para o meu futuro são apenas personagens, e que a menina de nariz arrebitado e olhos de Capitu também não é mais do que isso, não é uma tarefa simples. Requer um desapego ao qual não estou acostumada. A gente dá solidez às histórias que cria.

Nos raros momentos em que consigo olhar pra tudo isso e achar uma certa graça, no entanto, fica fácil perceber que estar no presente é muito mais confortável. Fica fácil entender que o sofrimento no presente, de modo geral, é menor porque ele é aquilo com que conseguimos lidar. De um jeito ou de outro.

A menina da foto não existe mais. É bonitinha, tem um olhar de Capitu… Mas também pode ser que tudo não passasse de uma pose para o fotógrafo. Era 1988. Hoje é 2018. Eu estou aqui, diante deste computador, falando sobre estar presente. E você está aí, lendo este texto e talvez pensando no passado… ou no futuro. Ou talvez concordando comigo que a única coisa que temos hoje é este momento que estamos vivendo exatamente agora. E que pode ser profundamente tranquilizador entender isso.

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O silêncio e o barulho

Foto: Pixabay

Foco no agora, Dani. Atenção. Nada de passado ou futuro rondando. Aí o pensamento vai lá na agenda. “Eu tinha que ter marcado aquele atendimento. Será que não é melhor parar agora e anotar. Depois posso me esquecer…” Não, Dani. Foco no aqui. Respira. Foca na respiração. Ok. O ar entra pelas narinas. Sai um pouco mais quente do que entrou. “Por que eu me irritei daquele jeito com as meninas? Meu Deus, preciso me lembrar de pedir desculpas a elas. Não seria bom fazer isso agora?” Tá doida, Daniela? Volta, pessoa. Foco no aqui. São apenas 15 minutos. “Ok. 15 minutos.” Corpo firme, mas flexível. Calor. Respiração. Energias se equilibrando. “Que blusa eu deveria usar pra gravar aquele vídeo hoje? Tô me achando meio feia…”. Volta, Dani. “Ok. Tem alguma coisa mais equilibrada que, dentro de mim, observa toda essa confusão que surge na minha mente.”

A meditação salva os meus dias. A busca pela atenção plena é um dos caminhos mais bonitos que descobri nessa jornada que há alguns anos decidi empreender em busca de paz. No meio da confusão, eu às vezes encontro o equilíbrio. Não esvazio a mente, nem paro de pensar. Apenas solto os pensamentos, que surgem em turbilhões a cada vez que me sento. E nada é mais pacificador do que esse silêncio. Ao me levantar, descubro que o atendimento com que eu me preocupava já tinha sido marcado, peço desculpas às meninas e elas nem entendem o porquê e acho que aquela camiseta de alça está bem ok pra gravar o vídeo para o YouTube. 

Quando a gente encontra um lugar silencioso pra descansar, imóveis, todos os movimentos e as palavras que se seguem são mais suaves. O que aprendo, pouco a pouco, é que não há momento nem circunstâncias ideais. Há a gente, aqui e agora, nas condições que temos hoje. O barulho pode demorar a cessar. Pode não cessar. Então vamos silenciar com barulho mesmo… 

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Autocontrole

Foto: Pixabay

Acabei de descobrir que existe um curso online ensinando técnicas para desenvolver o autocontrole emocional. Não comprei e, portanto, não posso dizer se é bom. Mas acho que deve ter bastante gente interessada, uma vez que quando a gente digita “autocontrole” no Google recebe uma enxurrada de artigos com dicas para controlar as próprias emoções. Durante muito tempo, eu também corri atrás dessas dicas. O problema é que, comigo, elas sempre falharam.

Teve uma época em que eu tentava contar até 10 quando tinha vontade de gritar. Depois eu aprendi a sorrir quando queria sair correndo. Já segui tantas receitas de autocontrole que é possível que há alguns anos eu não titubeasse para comprar um curso online que me ajudasse a conter minhas emoções exatamente no lugar onde eu acreditava que elas deveriam estar: trancadas no fundo de um baú onde não me incomodassem mais.

O problema é que tudo o que a gente represa uma hora volta com mais força e mais fúria do que nunca. Não é diferente com as emoções. O que é um verdadeiro desastre, uma vez que a gente só busca tão desesperadamente o autocontrole porque tem pânico absoluto de perder o controle… que é bem o que acontece quando a panela de pressão explode.

Um dia, uma pessoa linda, que é uma das minhas lanternas no meio da escuridão, me disse que pacificar as emoções não era sobre ter autocontrole. Nãaaaaaooooo? “Apenas solte”, ela me ensinou. Soltar é bem mais difícil que ter autocontrole porque a gente se agarra às coisas, às pessoas e aos sentimentos como se deles dependesse a nossa existência. Mas não há nada mais libertador que soltar.

Não é sobre segurar a emoção entre os dentes e as lágrimas dentro do peito, mas decididamente soltar também não é sobre dizer verdades duras a todos ou chorar copiosamente as mazelas de uma vida inteira no ombro do primeiro que aparecer.

Soltar é sobre silenciar sem calar. É sobre encontrar no silêncio uma paz que não existe no meio da confusão que nos impomos. Não é sobre fechar os olhos e os ouvidos pra quem precisa de nós. Mas é sobre perceber que, se não podemos nos refugiar no silêncio que acalma e que pacifica, nosso acolhimento para o outro nunca será tranquilo nem desprendido. 

As malas que a gente carrega são muitas, são muito pesadas e há muito estão conosco. Soltá-las não é fácil. Mas manter o controle enquanto caminhamos com tanto peso nas costas também é muito difícil. Em vez de tentar o curso online para desenvolver um pouco mais de autocontrole, estou preferindo experimentar um caminho que me libere um pouco do controle. Tem uma das minhas bolsas, cheia de pedras, que anda pesando demais. Vou ver se consigo pelo menos esvaziá-la um pouco… pra seguir mais leve. E menos controlada.

Quem vem comigo?

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Castelos de areia

Foto: Pixabay

Castelos de areia me lembram todas as planilhas que tentei fazer pra organizar a vida e o futuro. Arrumei tudo muito direitinho, botei no papel, marquei data, enfeitei… e a onda do mar desmanchou tudo. Até eu finalmente entender que essa é a lógica dos planos e dos castelos de areia: eventualmente, eles são muito bem executados e servem pra que fiquemos felizes ou nos sintamos muito orgulhosos… mas uma onda do mar fatalmente virá e desmanchará tudinho.

Quando a gente começa a se divertir com as ondas que destroem castelos, a vida passa a ficar mais leve. Não é um processo fácil, mas desconfio que ele é necessário. Porque as ondas sempre vão destruir os castelos. E a gente vai sempre construir outros. E chega a ser engraçado que a gente continue pensando que esses agora não serão mais destruídos… porque vão. O destino dos castelos de areia é serem destruídos pelas ondas do mar. E, no entanto, a gente insiste em acreditar que isso não vai acontecer.

Acho que este site é sobre construir castelos… e é também sobre admirar as ondas do mar. É sobre perceber que há alguma coisa que permanece mesmo quando os castelos são destruídos. A areia ainda está lá. O mar permanece. E a gente sempre consegue se reinventar.

Aqui vamos falar de pacificar e de estar em paz. E de tentar levar a vida de um jeito mais leve, mais suave… vendo as ondas do mar destruírem castelos e tentando achar uma certa graça nisso. Porque, no fundo, tudo tem uma certa graça. E se tem uma coisa que salva a gente é o humor. 🙂

Sejam bem-vindos a este lugar onde ninguém tem controle nada!