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Por favor, não se esqueçam de que há uma pandemia lá fora

Imagem: Pixabay

Algumas pessoas estão redescobrindo pequenos prazeres durante esta quarentena. Tem gente revelando talentos incríveis na cozinha. Tem gente finalmente encontrando tempo e disposição pra se sentar no chão e brincar com os filhos. Tem gente se sentando pra conversar no fim do dia. E é, de fato, maravilhoso que a ameaça de um vírus que pode nos matar, repentinamente, a todos, possa nos devolver uma vida da qual jamais deveríamos ter aberto mão. Ainda assim, eu gostaria de sugerir a cada um que, de rompante, foi tocado pela certeza absoluta da impermanência: dediquem-se aos prazeres, mas, por favor, não se esqueçam de que há uma pandemia lá fora.

A minha porta de entrada para o budismo foi a primeira nobre verdade: “O sofrimento existe”. Sidarta Gautama, o Buda histórico, não disse que o sofrimento dignificava as pessoas ou que fosse necessário sofrer. Pelo contrário. Ele deu mais de 800 mil ensinamentos para ajudar as pessoas a se libertarem do sofrimento. Mas não é possível que a gente se liberte daquilo que nega. A gente não se liberta daquilo que finge que não existe.

Pois bem: é por isso, precisamente por isso, que eu peço a quem se sentiu tocado pela quarentena imposta por essa pandemia que jamais se esqueça da pandemia. Se a gente não entender que o sofrimento existe, não haverá sequer o desejo de se libertar do sofrimento. Perdoem-me usar aqui as referências do budismo, mas é que elas me são bastante caras e, acredito, ilustrativas para o momento.

Sidarta Gautama era um príncipe. Vivia, de certo modo, numa quarentena nababesca imposta por seu pai, que queria impedir o filho de entrar em contato com qualquer tipo de sofrimento. Por isso, ele não podia ultrapassar os muros do castelo. Mas parece que ele tinha intenção de furar aquela bolha e entender a vida para além dos muros. Um dia fugiu, viu as pessoas que estavam do lado de fora e compreendeu a primeira nobre verdade: “o sofrimento existe”.

Sua vida, dali em diante, foi a busca de um caminho que qualquer pessoa pudesse seguir para se libertar de todo o sofrimento. Tenho pra mim que ele conseguiu. Jamais pela negação. Se a gente nega que existe sofrimento lá fora, quando ele por ventura nos bater à porta não conseguiremos manter a tranquilidade. É preciso se familiarizar com a paz diante de todas as intempéries que parecem existir somente para nos roubar a paz. E a gente não consegue fazer isso se apenas ignorar a guerra.

Então, é assim: o sofrimento existe. Há uma pandemia lá fora que nos obriga a ficar em casa. E para nós, que temos a possibilidade de ficar em casa – alguns realmente não têm –, talvez esta seja a melhor oportunidade de nossas vidas para descobrir que ficar em paz e lidar tranquilamente com quaisquer circunstâncias que nos apareçam só depende de cada um de nós. É a grande chance que temos de fazer a nossa metamorfose (pra quem leu o último texto, informo que sim, é possível que eu esteja me tornando repetitiva…rs).

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E se for tempo de metamorfose?

Imagem: Pixabay

Pára. Respira. Olha pra dentro. Vê o que é isso que lhe incomoda tanto.

Não posso. Não tenho tempo pra isso. Não vê que tenho muito trabalho? Não percebe quantas coisas preciso resolver a todo minuto? Até queria estar à toa como você.

Como pode um vírus, tão pequeno, parar o mundo inteiro? Como vai ficar a economia? Como as pessoas sobreviverão se não puderem correr como baratas tontas, conferindo a todo instante os seus relógios de pulso?

Não sei. Sei que se não pararem, elas irão morrer. Ou semear a morte entre os seus.

Vou faxinar a casa. Fazer um curso de design gráfico pela internet. Maratonar umas séries pela Netflix. Se bem que as crianças em seu ensino EAD, somado ao fato de que tenho infinitas reuniões importantíssimas e inadiáveis pelo Zoom, não me dão tempo a perder com futilidades.

Experimente parar. Respirar. Olhar pra dentro.

Diminuiram o volume do meu teletrabalho. Estão cogitando reduzir salários. O país está parado. Já passa da hora de voltarmos às ruas e exigir o nosso direito de trabalhar. Querem nos roubar o direito de trabalhar.

Será que não é hora de respirar um pouco? Agora há tempo. Será que é mesmo necessário seguir nesse moto-contínuo? Nessa corrida incessante sem saber para onde?

Não suporto mais ficar em casa. Me cansei dos filmes. O trabalho diminuiu. O medo do vírus me assombra. O silêncio me oprime. Sinto falta do barulho. Sinto falta do trânsito. Da minha agenda lotada. De tudo que jamais me deu tempo pra respirar. É insuportável respirar.

Apenas tente. Você ainda não respirou. Ainda não parou. Não sabe como é. O que pode ser tão assustador se você está em casa e ainda pode pagar pela sua comida? Inspira, expira. O vírus está lá fora. Você ainda pode respirar com facilidade dentro de casa. Vamos. Experimenta. Há uma paz com a qual a gente frequentemente perde a intimidade, mas que, uma vez reconhecida, nunca mais se quer abandonar. Esquece agenda. Esquece filmes. Pára. Inspira. Expira. E se ainda der tempo de transformar essa quarentena na metamorfose que você sempre desejou? Pára um pouco. Escuta o que o silêncio tem a te dizer.

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Feliz ano novo

Para Júlio César

Imagem: Pixabay

Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz

Acho que eu tinha 14, ou talvez 16 anos, quando rodopiava pela casa entoando, desafinadamente, essa canção do Chico. É comovente essa fé inabalável que os adolescentes depositam no futuro, não acham? Tudo cabe no futuro de um adolescente. Todas as possibilidades existem.

Aí, um belo dia a gente acorda com um emprego que acredita ser não o melhor, mas o único que podemos ter, e um relacionamento que juramos que só a morte poderá encerrar. E passamos a crer que já somos velhos demais pra aprender coisas novas, nos arriscarmos em novos projetos, viajarmos para destinos desconhecidos ou mudarmos de opinião.

E quando a gente pretende se cristalizar nesse papel de que tudo chegou onde deveria chegar ela surge: ah, a impermanência! Sacode tudo e nos mostra que não podemos nos agarrar na carreira sólida, no casamento estável, na casa própria decorada com esmero, nas viagens anuais para a praia, na família que parece tão perfeita naquela foto do último Natal… A impermanência exige reticências.

Brigar com esse turbilhão que implode os alicerces cuidadosamente construídos ao longo dos anos em que nos empenhamos para criar um futuro não é uma boa escolha. É briga ruim, como diria uma amiga minha. Agarrar-se aos escombros também não ajuda muito.

Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúme
Hoje contei as estrelas
E a vida parece um filme…

Acreditar em outros futuros, abrir-se para novas possibilidades e entender que cada vez que um castelo de areia se desmancha estamos diante da encantadora possibilidade de erguer um ainda mais bonito me parece uma escolha mais divertida.

Para este 2020, desejo a você e a mim muito mais do que esses castelos incríveis que certamente vamos construir: quero que a gente nunca se esqueça de que mesmo as construções mais estonteantes são feitas de areia. E que disso é feito o nosso bem mais precioso: a liberdade de criar e recriar futuros sempre que a realidade parecer excessivamente sólida para nos oferecer outras possibilidades. Nós somos a possibilidade.

Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente
Eu não fui feliz…

  • CLIQUE AQUI pra ouvir Sentimental, a canção do Chico Buarque, na voz de Zizi Possi.

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Recalculando a rota

Para Márcia Baja

Imagem: Pixabay

Na semana passada, uma mulher chinesa quase morreu ao sofrer um infarto enquanto ajudava seu filho a fazer a lição de casa. Pelo inusitado da situação, o caso virou notícia em jornais do mundo inteiro (confira os links no final deste texto). A mulher disse que sentiu muita raiva e “teve vontade de explodir” porque não conseguia fazer o filho pequeno entender a questão encaminhada pela professora.

Decidi falar desse assunto, que não me sai da cabeça desde que li a notícia e a repercussão do fato pelas muitas mães que fazem parte do meu círculo, porque considero verdadeiramente preocupante o nível de estresse sob o qual a gente tem vivido.

Eu não me lembro de ter a ajuda da minha mãe para fazer o para-casa do 3º ano. Não acho que as mães não devam ajudar seus filhos, caso sejam solicitadas. Por favor, não é isso. Só fiquei pensando no que leva uma moça de 36 anos a infartar porque o filho não entendeu a lição. No que nos leva a querer controlar a vida e as suas circunstâncias de tal modo que se uma criança não nos dá a resposta que acreditamos ser necessária “temos vontade de explodir”.

É disso que trata este texto. Dessa ilusão que temos de que tudo pode ser controlado. Algumas crianças vão repetir de ano ao longo de sua vida escolar. Alguns de nós vão adoecer no próximo ano. Algumas pessoas que amamos vão partir antes do que esperamos (esperamos?). Alguns de nós vão perder o emprego. Alguém vai se separar. Alguém vai trair e alguém será traído. Não estou desejando coisas ruins a ninguém, mas é assim, desse jeito, que a vida acontece. Não apenas a sua vida. A vida de todos nós.

Acontece que planejamos cada vez mais o nosso futuro e suportamos cada vez menos o que não estava nos nossos planos. “Tentei explicar a ele várias vezes, mas ele não me dava a resposta correta”, a chinesa que preferiu não ser identificada contou ao jornal. “Comecei a ficar com raiva e sentindo que explodiria. De repente, eu me senti tonta e com dificuldade para respirar.” Ela certamente se esforçou muito para ensinar aquela lição ao filho. E se você tem uma criança em idade escolar deve entender exatamente o que estou dizendo.

Nós geralmente esperamos que a vida nos ofereça uma farta colheita quando pensamos ter-nos dedicado à boa plantação. Mas a geada também assola a lavoura de quem trabalhou duro. Ninguém tem culpa. Apenas acontece assim. Talvez o garoto chinês acabe entendendo a questão proposta pela professora. Talvez não. Mas ele certamente não queria que sua mãe corresse risco de vida.

Nem sempre vamos conseguir “enfiar na cabeça” de uma criança de 8 ou 9 anos os conceitos que acreditamos fundamentais para a vida. Nem sempre vamos conseguir manter o emprego que nos garante o sustento. Nem sempre, apesar das dietas e exercícios regulares, vamos ter a garantia de nos manter saudáveis. Nem sempre vamos conseguir adiar o nosso encontro com a morte.

Quando digo que preciso abrir mão do controle, as pessoas me falam que isso é muito difícil. Mas a gente não tem controle de nada: abrir mão é simplesmente reconhecer isso. O ponto é que nem esse reconhecimento é capaz de tornar essa tarefa menos difícil. Ela é, de fato, dificílima. A não ser para as crianças. Uma das minhas filhas, dia desses, diante da minha aflição ao vê-la tomar suas próprias decisões (essa coisa que a gente costuma chamar de “se arriscar”), me disse apenas: “Me deixe ir, mãe. Me deixe errar. Pode ficar tranquila porque eu sei gritar e se der errado eu volto correndo e conto tudo pra você”.

Talvez eu nem esteja aqui pra ouvir todas as coisas que vão “dar errado”. Meu desejo e minhas ações meticulosamente calculadas não podem garantir que tudo estará sob controle. Entretanto, pra aumentar a chance de estar disponível pra ela, é prudente melhorar minha alimentação, fazer algum exercício físico e diminuir a tensão. O que me faz lembrar de uma das pessoas mais lindas e sábias que já tive a honra de conhecer: Marcia Baja, yogini e tutora do CEBB. Foi dela que ouvi uma vez que o “método Waze” é uma boa maneira de lidar com a vida. Quando a gente erra o caminho, o aplicativo não berra nem diz que tudo está perdido. Ele apenas avisa: “Recalculando a rota”. E seguimos.

Links para algumas matérias sobre o caso da mãe chinesa:

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Faça uma cara feliz

Divulgação

Aclamado no Festival de Veneza, de onde saiu com um Leão de Ouro, o filme Coringa enfrentou duras críticas nos EUA, sob a acusação de incitação à violência e apoio aos atos criminosos que acontecem também fora das telas. A fita estreou no Brasil hoje e eu fui assistir. Não acho que incita a violência. Tampouco justifica atos injustificáveis. Mas é profundamente incômoda porque nos obriga a olhar para a violência desde a sua origem. O filme nos apresenta um vilão incomodamente humano, demasiado humano (perdoe a citação infame, Nietzche).

Mais que um palhaço assassino, o arqui-inimigo do Batman, é uma criatura profundamente atormentada. Seu riso não tem graça nem alegria. Sua vida é uma piada de péssimo gosto.

“Faça uma cara feliz.”

A frase é uma ordem dada ao palhaço, sofredor desde que se entende por gente.

“Sorria.” Ele repete a si mesmo, convencido de que deve levar adiante a ingrata missão de oferecer alegria ao mundo, ainda que se sinta frequentemente tratado com desprezo e violência.

Por algum motivo, a gargalhada neurótica, que o próprio personagem anuncia ao mundo como doença, e a insistência na alegria como obrigação imposta a quem foi proibido de compreender a própria dor, me lembrou essa positividade que tentamos nos impor, ainda que não sejamos capazes de acreditar na sua verdade.

Atormentado, entre outras coisas, por uma risada sobre qual sente que não exerce nenhum controle, o palhaço vilão não encontra escuta nem na terapia imposta pelo serviço social. Sem qualquer tipo de acolhimento para as dores que aprendeu a sufocar sob uma cara feliz, ele vê a sombra se impor à luminosidade obrigatória do sorriso de modo sarcástico.

E a sombra, quando sufocada, se impõe de forma gigantesca e violenta. O sofrimento existe, quer você queira ou não olhar pra ele. E é por isso que é melhor olhar, acolher e arrumar um lugar para alojá-lo dentro de si. Se houver espaço para as lágrimas e as caras tristes, o sorriso pode brotar da luminosidade que só se faz presente por causa da sombra. Não será necessário pintá-lo com tinta… ou com sangue.