Sem categoria

Recalculando a rota

Para Márcia Baja

Imagem: Pixabay

Na semana passada, uma mulher chinesa quase morreu ao sofrer um infarto enquanto ajudava seu filho a fazer a lição de casa. Pelo inusitado da situação, o caso virou notícia em jornais do mundo inteiro (confira os links no final deste texto). A mulher disse que sentiu muita raiva e “teve vontade de explodir” porque não conseguia fazer o filho pequeno entender a questão encaminhada pela professora.

Decidi falar desse assunto, que não me sai da cabeça desde que li a notícia e a repercussão do fato pelas muitas mães que fazem parte do meu círculo, porque considero verdadeiramente preocupante o nível de estresse sob o qual a gente tem vivido.

Eu não me lembro de ter a ajuda da minha mãe para fazer o para-casa do 3º ano. Não acho que as mães não devam ajudar seus filhos, caso sejam solicitadas. Por favor, não é isso. Só fiquei pensando no que leva uma moça de 36 anos a infartar porque o filho não entendeu a lição. No que nos leva a querer controlar a vida e as suas circunstâncias de tal modo que se uma criança não nos dá a resposta que acreditamos ser necessária “temos vontade de explodir”.

É disso que trata este texto. Dessa ilusão que temos de que tudo pode ser controlado. Algumas crianças vão repetir de ano ao longo de sua vida escolar. Alguns de nós vão adoecer no próximo ano. Algumas pessoas que amamos vão partir antes do que esperamos (esperamos?). Alguns de nós vão perder o emprego. Alguém vai se separar. Alguém vai trair e alguém será traído. Não estou desejando coisas ruins a ninguém, mas é assim, desse jeito, que a vida acontece. Não apenas a sua vida. A vida de todos nós.

Acontece que planejamos cada vez mais o nosso futuro e suportamos cada vez menos o que não estava nos nossos planos. “Tentei explicar a ele várias vezes, mas ele não me dava a resposta correta”, a chinesa que preferiu não ser identificada contou ao jornal. “Comecei a ficar com raiva e sentindo que explodiria. De repente, eu me senti tonta e com dificuldade para respirar.” Ela certamente se esforçou muito para ensinar aquela lição ao filho. E se você tem uma criança em idade escolar deve entender exatamente o que estou dizendo.

Nós geralmente esperamos que a vida nos ofereça uma farta colheita quando pensamos ter-nos dedicado à boa plantação. Mas a geada também assola a lavoura de quem trabalhou duro. Ninguém tem culpa. Apenas acontece assim. Talvez o garoto chinês acabe entendendo a questão proposta pela professora. Talvez não. Mas ele certamente não queria que sua mãe corresse risco de vida.

Nem sempre vamos conseguir “enfiar na cabeça” de uma criança de 8 ou 9 anos os conceitos que acreditamos fundamentais para a vida. Nem sempre vamos conseguir manter o emprego que nos garante o sustento. Nem sempre, apesar das dietas e exercícios regulares, vamos ter a garantia de nos manter saudáveis. Nem sempre vamos conseguir adiar o nosso encontro com a morte.

Quando digo que preciso abrir mão do controle, as pessoas me falam que isso é muito difícil. Mas a gente não tem controle de nada: abrir mão é simplesmente reconhecer isso. O ponto é que nem esse reconhecimento é capaz de tornar essa tarefa menos difícil. Ela é, de fato, dificílima. A não ser para as crianças. Uma das minhas filhas, dia desses, diante da minha aflição ao vê-la tomar suas próprias decisões (essa coisa que a gente costuma chamar de “se arriscar”), me disse apenas: “Me deixe ir, mãe. Me deixe errar. Pode ficar tranquila porque eu sei gritar e se der errado eu volto correndo e conto tudo pra você”.

Talvez eu nem esteja aqui pra ouvir todas as coisas que vão “dar errado”. Meu desejo e minhas ações meticulosamente calculadas não podem garantir que tudo estará sob controle. Entretanto, pra aumentar a chance de estar disponível pra ela, é prudente melhorar minha alimentação, fazer algum exercício físico e diminuir a tensão. O que me faz lembrar de uma das pessoas mais lindas e sábias que já tive a honra de conhecer: Marcia Baja, yogini e tutora do CEBB. Foi dela que ouvi uma vez que o “método Waze” é uma boa maneira de lidar com a vida. Quando a gente erra o caminho, o aplicativo não berra nem diz que tudo está perdido. Ele apenas avisa: “Recalculando a rota”. E seguimos.

Links para algumas matérias sobre o caso da mãe chinesa:

Cultura de paz

O Lama e o Economista*

Foto: Divulgação/CEBB

Redes compassivas como caminho para tempos difíceis. Esse é o tema da palestra que o Lama Padma Samten, do Centro de Estudos Budistas Bodisatva, vai realizar em Belo Horizonte no fim deste mês. Olhei pra esse tema e me lembrei da primeira vez que o ouvi afirmar que “a base que sustenta o mundo não é a economia, mas a compaixão”. Confesso que essa fala me causou estranhamento e até um certo incômodo. Como assim? Não é a economia que gira tudo? Não é ela quem determina os que sobrevivem e os que sucumbem nesta roda sustentada pelo capital?

Em ocasiões distintas, nos muitos vídeos que já assisti em seu canal no Youtube, tornei a ouvir essa fala dele outras vezes. A cada vez, ela parecia fazer mais sentido. Redes compassivas de fato nos sustentam, especialmente em tempos de crise. E, se aprendermos a organizá-las melhor, veremos que nossa preocupação com os seres é capaz de garantir a sobrevivência de cada um de nós. Estou convencida disso.

O livro mais recente do Dalai Lama, dedicado aos jovens e intitulado Façam a revolução, diz alguma coisa parecida com isso (leia mais aqui). O que de fato pode nos salvar é essa união em benefício de todos. Não sei se é exatamente disso que o Lama vai falar. Não perguntei a ele (rs). Mas estou aqui fazendo conjecturas acerca do tema da palestra a que gostaria imensamente de assistir.

O Lama Samten vai oferecer também um mini-curso com um tema que também cai como um bálsamo nas feridas abertas por estes nossos tempos: Lucidez – Transformando confusão em sabedoria. Porque vamos combinar que confusão é o que não anda faltando neste nosso dia-a-dia, não é mesmo? E desconfio que sabedoria pode ser a chave pra lidar melhor com essa roda que parece girar e nos deixar sempre mais e mais perdidos.

Vou deixar aí embaixo os dados sobre os dois eventos com o Lama Samten porque as inscrições já estão abertas e se alguém quiser participar acho que é melhor se apressar pra garantir uma vaga. Se você também ainda não se convenceu de que a compaixão é uma base de sustentação muito mais sólida do que a economia, sugiro que você dê um pulo pelo menos na palestra. Eu não sou muito boa para explicar, mas pode ser que ouvi-lo falar e conhecer outras pessoas interessadas em criar redes que beneficiem um número maior de seres faça os seus níveis de esperança e vontade de mudar aumentarem um pouco. Ou muito. Enfim, eu acho que vale.

Palestra

Redes compassivas como caminho para tempos difíceis

Sábado, 30 de março às 20h
Teatro Santo Agostinho, Rua dos Aimorés, 2679 – Santo Agostinho – Belo Horizonte
Contribuição sugerida: R$ 30

Curso

Lucidez – Transformando confusão em sabedoria

Sábado, 30 de março de 14h às 17h
Domingo, 31 de março de 9h às 12h
Hotel Boulevard Plaza, Av. Getúlio Vargas, 1640, Salão Villa Lobos – Savassi, Belo Horizonte
Contribuição sugerida: R$ 160

CLIQUE AQUI para fazer sua inscrição.

* “O Lama e o Economista” é um título que peguei emprestado de um livro do próprio Lama Samten