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Feliz ano novo

Para Júlio César

Imagem: Pixabay

Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz

Acho que eu tinha 14, ou talvez 16 anos, quando rodopiava pela casa entoando, desafinadamente, essa canção do Chico. É comovente essa fé inabalável que os adolescentes depositam no futuro, não acham? Tudo cabe no futuro de um adolescente. Todas as possibilidades existem.

Aí, um belo dia a gente acorda com um emprego que acredita ser não o melhor, mas o único que podemos ter, e um relacionamento que juramos que só a morte poderá encerrar. E passamos a crer que já somos velhos demais pra aprender coisas novas, nos arriscarmos em novos projetos, viajarmos para destinos desconhecidos ou mudarmos de opinião.

E quando a gente pretende se cristalizar nesse papel de que tudo chegou onde deveria chegar ela surge: ah, a impermanência! Sacode tudo e nos mostra que não podemos nos agarrar na carreira sólida, no casamento estável, na casa própria decorada com esmero, nas viagens anuais para a praia, na família que parece tão perfeita naquela foto do último Natal… A impermanência exige reticências.

Brigar com esse turbilhão que implode os alicerces cuidadosamente construídos ao longo dos anos em que nos empenhamos para criar um futuro não é uma boa escolha. É briga ruim, como diria uma amiga minha. Agarrar-se aos escombros também não ajuda muito.

Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúme
Hoje contei as estrelas
E a vida parece um filme…

Acreditar em outros futuros, abrir-se para novas possibilidades e entender que cada vez que um castelo de areia se desmancha estamos diante da encantadora possibilidade de erguer um ainda mais bonito me parece uma escolha mais divertida.

Para este 2020, desejo a você e a mim muito mais do que esses castelos incríveis que certamente vamos construir: quero que a gente nunca se esqueça de que mesmo as construções mais estonteantes são feitas de areia. E que disso é feito o nosso bem mais precioso: a liberdade de criar e recriar futuros sempre que a realidade parecer excessivamente sólida para nos oferecer outras possibilidades. Nós somos a possibilidade.

Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente
Eu não fui feliz…

  • CLIQUE AQUI pra ouvir Sentimental, a canção do Chico Buarque, na voz de Zizi Possi.

Cultura de paz, mindfullness

Lobo-lo-bo-lo-bo-lo

Foto: Pixabay

Tem um livro infantil de que eu gosto muito. É um livro de Chico Buarque chamado Chapeuzinho Amarelo. Conta de uma menina que morria de medo do lobo, mas um dia entendeu que lobo, dito assim bem rápido, acabava virando bolo e não metia mais medo em ninguém. Não sei escrever com a poesia do Chico, então estou aqui cometendo a infâmia de resumir a obra desse jeito tosco. Mas acho que todo mundo devia ler o original e presentear às crianças queridas.

Pois bem, estou aqui falando desse livro porque acho que é uma extrema sabedoria que a gente consiga olhar bem de perto pras nossas emoções, até perceber o momento em que elas surgem… porque é exatamente ali que elas desaparecem. As crianças compreendem isso com uma sabedoria admirável. Basta ver as reações que têm ao ouvir a história da Chapeuzinho Amarelo. Nós, adultos, damos tanta solidez aos nossos sentimentos que achamos quase impossível vê-los se dissolverem.

Acordei com o coração meio apertado e uma sensação de ansiedade um tanto inexplicável. Me irritei com o barulho do telefone tocando e já ia pedir que não me dessem bom dia quando me lembrei do livro da Chapeuzinho Amarelo. De onde viria esse sininho de irritação que poderia tocar durante o dia inteiro, azedando todos os meus contatos a partir daquela manhã? Decidi ver se o meu lobo também seria capaz de ser convertido em lobo.

Pedi licença por 20 minutos porque precisava de um pouco de silêncio para espreitar as minhas emoções. De onde vinha aquele aperto no peito tão logo eu me levantara da cama? Eu tinha dormido bem… Silenciei e comecei a perguntar à minha irritação em que momento ela tinha aparecido. Eu havia despertado sem despertador. Não era o barulho do relógio, portanto. Também não eram os vizinhos, que geralmente faziam barulho à noite, mas não pela manhã.

Continuei olhando para aquela irritação, que parecia ter surgido antes mesmo do dia raiar e eu me levantar. Eu havia acordado cerca de duas horas antes de finalmente me levantar e ficara fritando na cama até um horário em que considerei razoável abrir os olhos para finalmente iniciar o dia. Mas por quê?

Na noite anterior, eu tinha trabalhado até tarde e não tinha conseguido terminar minhas tarefas. Dormi pensando no que tinha para fazer. Ao acordar, tinha clareza de que havia tempo para fazer tudo o que era preciso, mas a ansiedade de quem não tinha terminado suas tarefas ainda estava ali.

Olhei pr ‘aquilo e entendi que não havia motivo para me irritar. Nem para estar ansiosa. O dia anterior já tinha terminado. Eu não havia concluído o que havia me proposto e já havia resolvido que estava tudo bem com isso. Tanto que dormi. Agora estava acordada e poderia concluir o que precisava ser feito. Mas não antes de um café. O lobo tinha virado bolo.

Retornei do silêncio e sorri para os meus. “Bom dia, pessoal. Obrigada por me permitirem esse silêncio. Eu estava ocupada em transformar um lobo em bolo.” Ninguém entendeu nada. Mas eu ri. E pensei que devíamos nos ocupar mais de transformar nossos lobos em bolos.