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A esperança equilibrista

Para Dora
Imagem: Pixabay

Ninguém acreditou que seria fácil quando, de uma hora pra outra, uma criatura invisível a olho nu nos trancou dentro de casa para repensar tudo o que a gente vinha fazendo e construindo ao longo das últimas eras. Não podia ser fácil. Mas eu confesso que tive uma pontinha de esperança quando, em apenas duas semanas, a qualidade do ar em várias metrópoles pareceu melhorar e a gente, de algum modo, começou a se reorganizar de outras maneiras, pensando no bem estar da coletividade. Talvez tenha sido minha mente aquariana ou, quem sabe, os arroubos otimistas que em outros tempos já me renderam a fama de Pollyanna.

O fato é que eu realmente esperava chegar ao fim de 2020 com um pouco mais de esperança e um pouco menos de dor. Mas cá estamos, às portas de 2021, com a impermanência escancarada e sem máscaras diante dos nossos olhos. Seguimos contaminando pessoas, cultuando a violência e desmatando florestas. Decididamente, este não é um fim de ano feliz.

Pensei muito se deveria escrever este texto num site chamado Pacificando. E me dei conta de que, mais uma vez, é o gerúndio que salva este espaço. Seguimos construindo, tentando, caindo, levantando… pacificando. Perdemos empregos, perdemos dinheiro, perdemos florestas, perdemos muitos e grandes amores. Perdemos muitas vidas. E sabemos que as perdas também seguem no gerúndio. Seguimos perdidos e perdendo.

Neste momento, me lembro do tarot e da carta da Estrela, de que falei no último texto que havia escrito aqui no blog (já faz um tempo, porque tenho achado difícil escrever). Percebo que estamos todos sob uma Torre que desaba. Não vai sobrar nada desses tijolos que passamos tantos e tantos anos cimentando uns sobre os outros. Não havia meios de derrubar uma construção tão sólida de modo suave. Portanto, cá estamos nós caindo do alto da Torre. Desmoronando junto com ela. O novo ano vai nos pegar em plena queda.

Mas seguimos. E quando tudo forem escombros haverá uma Estrela nua, frágil, vulnerável e absolutamente verdadeira para nos ajudar a trilhar um caminho de esperança. Entremos, pois, em 2021 conscientes de que ele não inicia nem encerra nada: apenas se apresenta como um caminho aberto para que a gente siga. No gerúndio e, de preferência, com reticências. Esperançando…