Terapias

A força da vulnerabilidade

Para Letícia Carreira, que generosamente insistiu pra que eu me rendesse ao tarot

Foto: Daniela Mata Machado

Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê chorar

O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir

(trecho da canção Estrela, de Gilberto Gil)

Passei anos atormentada pela carta da Torre. Tinha, inclusive, um pesadelo recorrente com um castelo medieval cheio de labirintos e absolutamente claustrofóbico, cuja única saída era saltar de sua torre mais alta. Levei mais de uma década pra compreender que aquele pesadelo era a carta da Torre. A famigerada carta que me deixava em pânico cada vez que aparecia nos meus jogos online. Eu vivi a Torre. Passei por ela e a vi destruir, com raios e trovões, cada tijolo da fortaleza que eu havia erguido para me proteger. Até que, bem mais recentemente, decidi aprender a jogar tarot de verdade… e passei a encontrar, em cada um dos meus jogos, a carta da Estrela. Então é isso: depois da Torre, vem a Estrela.

Nesse último fim de semana, a carta da Estrela se abateu sobre o meu corpo e a minha alma de um modo absolutamente visceral. Durante a Master Class em AIM – Abordagem Integrada da Mente (clique aqui para saber mais sobre essa abordagem incrível), facilitada pelo psiquiatra e neurocientista Diogo Lara, eu me deixei inundar pela vulnerabilidade e pela abertura da décima sétima carta do tarot.

Depois de ser arremessada do alto de uma Torre irremediavelmente destruída, a heroína está nua e já entendeu que não precisa carregar toda a bagagem que seguia arrastando: despeja na terra a água que vai ajudar a florescer e frutificar o solo e devolve ao rio o restante. A Estrela já passou pela Torre. E ela sabe que tudo o que basta é tão somente aquilo que é essencial.

A primeira formação em AIM me botou cara a cara com a carta da Torre: era preciso aceitar a destruição do que já se encontrava em ruínas. Seguir cimentando tijolo em cima de tijolo numa fortaleza que já não podia sustentar minha persona frágil era um trabalho inglório, que não resultaria em nada. Deixar que a fortaleza implodisse e revelasse toda a fragilidade do ego era um passo importante naquele momento.

Mas eu sabia que, cerca de um ano e meio depois, era preciso avançar mais um passo. Diante da Torre caída, um pouco contra a minha vontade, era necessário me fazer vulnerável, exposta e, finalmente, aberta para o caminho de esperança que se descortina. Não é preciso carregar a água: a que não serve para irrigar o solo deve retornar ao rio. Não é preciso erguer novos muros, nem criar e polir personas diversas. A Estrela se move absolutamente exposta, desprotegida e, por isso mesmo, forte. Com a força de quem descobre, dia após dia, que não é preciso nada além do essencial. O ser essencial.