Cultura de paz, mindfullness

Ontem, amanhã e… hoje

Foto: Álbum de família

A foto do álbum dos meus 15 anos, que minha mãe resolveu tirar da gaveta agora, quase às vésperas dos meus 45, me trouxe um monte de lembranças. Botei a imagem no Facebook pra lembrar a mim mesma da menina de nariz arrebitado e olhar de Capitu que eu havia me esquecido de um dia ter sido. Será que fui? Quanto será que a gente fantasia das próprias memórias? Quanto será que a gente sonha o passado do mesmo jeitinho que sonha o futuro? E onde é que fica o presente, esmagado entre esse passado romanceado e um futuro sempre incerto?

A menina do nariz arrebitado não existe mais. A mulher com quem me lembro de ela ter sonhado também não existe. Nunca existiu. Mas a menina sonhou muito com essa mulher que que saía por mil estradas dirigindo um carro conversível, com o cabelo ao vento e o violão no banco do carona. Talvez houvesse espaço pra um filho loirinho, chamado Gabriel, segurando esse violão no banco do carona.

Não sei dizer como era o presente daquela menina. Sei dela nas minhas memórias. Não sei se havia presente ou apenas um monte de futuro enganchado num tanto de passado (sim, a gente já tem passado aos 15!). E a verdade é que do presente de hoje também ainda sei pouco. Logo que acordo, me sento por 15 minutos pra entender que a única que coisa que de fato existe é o aqui e o agora. Penso no ontem, no amanhã… mas gentilmente me convido a voltar para este momento. Este. Agora mesmo. Aqui, diante do computador, escrevendo para você que, por algum motivo, parou pra ler o que eu tenho a dizer. Não agora. Em outro momento. O seu momento. O seu agora.

Lidar com o hoje é um exercício. Não sei quanto a você, mas pra mim talvez seja um dos mais difíceis que me propus a fazer. Entender que os personagens que criei para o meu futuro são apenas personagens, e que a menina de nariz arrebitado e olhos de Capitu também não é mais do que isso, não é uma tarefa simples. Requer um desapego ao qual não estou acostumada. A gente dá solidez às histórias que cria.

Nos raros momentos em que consigo olhar pra tudo isso e achar uma certa graça, no entanto, fica fácil perceber que estar no presente é muito mais confortável. Fica fácil entender que o sofrimento no presente, de modo geral, é menor porque ele é aquilo com que conseguimos lidar. De um jeito ou de outro.

A menina da foto não existe mais. É bonitinha, tem um olhar de Capitu… Mas também pode ser que tudo não passasse de uma pose para o fotógrafo. Era 1988. Hoje é 2018. Eu estou aqui, diante deste computador, falando sobre estar presente. E você está aí, lendo este texto e talvez pensando no passado… ou no futuro. Ou talvez concordando comigo que a única coisa que temos hoje é este momento que estamos vivendo exatamente agora. E que pode ser profundamente tranquilizador entender isso.

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O silêncio e o barulho

Foto: Pixabay

Foco no agora, Dani. Atenção. Nada de passado ou futuro rondando. Aí o pensamento vai lá na agenda. “Eu tinha que ter marcado aquele atendimento. Será que não é melhor parar agora e anotar. Depois posso me esquecer…” Não, Dani. Foco no aqui. Respira. Foca na respiração. Ok. O ar entra pelas narinas. Sai um pouco mais quente do que entrou. “Por que eu me irritei daquele jeito com as meninas? Meu Deus, preciso me lembrar de pedir desculpas a elas. Não seria bom fazer isso agora?” Tá doida, Daniela? Volta, pessoa. Foco no aqui. São apenas 15 minutos. “Ok. 15 minutos.” Corpo firme, mas flexível. Calor. Respiração. Energias se equilibrando. “Que blusa eu deveria usar pra gravar aquele vídeo hoje? Tô me achando meio feia…”. Volta, Dani. “Ok. Tem alguma coisa mais equilibrada que, dentro de mim, observa toda essa confusão que surge na minha mente.”

A meditação salva os meus dias. A busca pela atenção plena é um dos caminhos mais bonitos que descobri nessa jornada que há alguns anos decidi empreender em busca de paz. No meio da confusão, eu às vezes encontro o equilíbrio. Não esvazio a mente, nem paro de pensar. Apenas solto os pensamentos, que surgem em turbilhões a cada vez que me sento. E nada é mais pacificador do que esse silêncio. Ao me levantar, descubro que o atendimento com que eu me preocupava já tinha sido marcado, peço desculpas às meninas e elas nem entendem o porquê e acho que aquela camiseta de alça está bem ok pra gravar o vídeo para o YouTube. 

Quando a gente encontra um lugar silencioso pra descansar, imóveis, todos os movimentos e as palavras que se seguem são mais suaves. O que aprendo, pouco a pouco, é que não há momento nem circunstâncias ideais. Há a gente, aqui e agora, nas condições que temos hoje. O barulho pode demorar a cessar. Pode não cessar. Então vamos silenciar com barulho mesmo…