Cultura de paz

Ser leve precisa ser uma escolha… leve

Imagem: Pixabay

“Eu não aguento mais! Eu juro que estou tentando ser uma pessoa leve! Eu acordo às 5h pra meditar, saio às 5h40 pra fazer ginástica, faço cursos de Disciplina Positiva pra tentar lidar da melhor maneira possível com aqueles capirotos que tenho lá em casa e juro por tudo que há neste mundo que tenho me empenhado como poucos para implementar todas as regras da CNV – Comunicação Não-Violenta em todos os lugares onde sou obrigada a estar. Mas eu não aguento mais!”

Eu ouvi o relato daquela moça. Ela realmente queria uma vida mais tranquila. E estava se empenhando como poucos. Ela havia escolhido ser leve.

_ O que é ser leve?

_ …

Não sei. É estar sempre tranquila, não me preocupar tanto com as coisas. É não me irritar tanto quando não consigo atender às demandas do meu chefe, da casa, das crianças…

Não sei. Acho que não sei o que é ser leve.

_ Você gostaria de não se irritar, mas se sente sobrecarregada, é isso?

_ Sim. Eu sempre levo trabalho pra casa. Depois que as crianças dormem, muitas vezes fico até 1h, 1h30 da manhã trabalhando. E às vezes depois disso ainda cuido de preparar minha marmita com comidas saudáveis pra garantir que não me contamine muito.

_ E acorda às 5h pra meditar e ir à ginástica?

_ Sim… Tenho feito isso.

Ela estava exausta. Custara a encaixar na sua rotina as atividades que acreditava que lhe trariam leveza. Não relaxava nunca porque seus horários eram milimetricamente cronometrados pra que ela conseguisse fazer tudo o que se propusera. E a primeira pergunta que havia me feito era se podia deixar o celular ligado durante a sessão de Reiki porque o chefe poderia ligar. O Reiki também era uma tentativa de tornar-se leve, eu entendi.

_ Você já encerrou o expediente hoje?

_ Sim.

_ Eu não acho uma boa ideia deixar o celular ligado.

_ Ok.

Ela consentiu, um pouco contrariada. Demorou meia hora pra permitir que seu corpo relaxasse um pouco.

Ser leve era uma escolha pesada na vida corrida e atribulada daquela moça. E ela estava a beira de um colapso.

A Disciplina Positiva é uma boa ideia para se contrapor à educação verticalizada que conhecemos. Os preceitos da CNV podem ajudar bastante na comunicação com as pessoas e eu não tenho a menor dúvida de que a meditação é um caminho precioso na vida de qualquer ser humano. Mas a escolha por uma vida leve precisa, ela mesma, ser leve.

Existe uma sabedoria que antecede as elaborações e as regras. Seu corpo pede pra continuar dormindo se você trabalhou por quase 18 horas no dia anterior. Acordar às 5h pra meditar num dia como esse talvez não seja uma boa ideia. E se você está exausta diante de uma criança que berra – talvez porque também esteja exausta –, é possível que silenciar e acalmar o seu próprio coração antes de decidir o que fazer lhe dê pistas melhores do que tentar recordar, sob os gritos do filho, todos os preceitos do livro de Disciplina Positiva que você terminou de ler no mês passado.

Com o celular desligado e uma música suave, a moça recebeu o Reiki e saiu do espaço de atendimento com um semblante mais tranquilo. Desejei, do fundo do meu coração, que ela iniciasse seu terceiro turno com menos preocupações.

Interromper a rotina, no meio do dia para receber Reiki, ou uma massagem, pode ser um bálsamo para seguir mais leve. Mas é preciso desligar o celular. E é preciso desligar também esse encadeamento incessante de pensamentos, que está constantemente criando realidades e formando conceitos sobre absolutamente tudo e todos. Parar, somente. E aos poucos ir aprendendo a parar mesmo durante o dia.

“É difícil ser leve”, a moça afirmou.

Não devia ser, mas é. Aprendemos a carregar tanto peso, tanta bagagem, tanto conhecimento… Sim, é difícil deixar essas malas pesadas e se permitir voar um pouco. Mas é uma boa coisa. Palavra de quem carrega duas mil malas lotadas de pedra e tijolo, mas sente-se bastante feliz quando, no meio do dia, solta cada uma delas e diz: vou ali voar um pouco dentro do meu silêncio. E que já anda descobrindo que esse lugar de silêncio é o melhor lugar do mundo.

Cultura de paz, mindfullness

De onde vim, pra onde vou?

Mamãe, de onde surgiu o mundo?

– Da grande explosão de um único átomo. Chamou-se Big Bang.

– Então, nós, as plantas, os animais e as coisas viemos todos de um único átomo?

– Viemos. Todos.

Minha pequena filha silenciou. Estava tão atônita quanto qualquer um de nós deveria estar depois de uma constatação dessas. E todos nós, que em algum momento tivemos contato com a Teoria Atômica, sabemos disso. E, no entanto, nos esquecemos. Para vivermos o dia-a-dia, acolhidos pelas certezas absolutas das nossas próprias bolhas, perdemos a visão do todo. Nos esquecemos de que “somos todos um” não é um slogan hiponga. É uma constatação científica. Eu, você, o cachorro que está na sua sala, o gato que vai morrer atropelado na sua rua, a árvore na frente na sua casa e aquele vizinho que você odeia viemos todos, todinhos, de um único átomo. Era nisso que minha filha estava pensando quando silenciou.

– E no que isso vai dar?

A segunda pergunta dela era mais difícil. O universo continua em expansão desde aquela primeira explosão que iniciou a confusão, né? Então a ideia é que vamos continuar nos espalhando até não sobrar muito mais que uma poeirinha. Fiquei pensando se isso seria muito dramático para contar a uma menina de 10 anos. Mas ela achou que não.

– Vai ficar só um vazio então, né?

– É, um vazio. Um imenso e alentador vazio. Calmo. Sereno. Acho que não vai rolar nem mesmo uma poeirinha depois que essa coisa toda se espalhar infinitamente pelo espaço – arrisquei, sem a menor convicção de que estivesse sendo muito científica.

– Ô, mãe. Me explica aqui: se a gente saiu todo mundo do mesmo átomo e no final vai se misturar na mesma poeira cósmica, por que é que, nesse intervalo, em vez de simplesmente curtir, o povo inventa de criar tanto problema, hein?

Aí, quem silenciou fui eu.

Não sei bem se é Índigo, Cristal ou Arco-Íris que fala não… Só sei que acredito neles pra salvar o que ainda existe de mundo antes de a gente virar a tal da poeirinha cósmica.

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Ontem, amanhã e… hoje

Foto: Álbum de família

A foto do álbum dos meus 15 anos, que minha mãe resolveu tirar da gaveta agora, quase às vésperas dos meus 45, me trouxe um monte de lembranças. Botei a imagem no Facebook pra lembrar a mim mesma da menina de nariz arrebitado e olhar de Capitu que eu havia me esquecido de um dia ter sido. Será que fui? Quanto será que a gente fantasia das próprias memórias? Quanto será que a gente sonha o passado do mesmo jeitinho que sonha o futuro? E onde é que fica o presente, esmagado entre esse passado romanceado e um futuro sempre incerto?

A menina do nariz arrebitado não existe mais. A mulher com quem me lembro de ela ter sonhado também não existe. Nunca existiu. Mas a menina sonhou muito com essa mulher que que saía por mil estradas dirigindo um carro conversível, com o cabelo ao vento e o violão no banco do carona. Talvez houvesse espaço pra um filho loirinho, chamado Gabriel, segurando esse violão no banco do carona.

Não sei dizer como era o presente daquela menina. Sei dela nas minhas memórias. Não sei se havia presente ou apenas um monte de futuro enganchado num tanto de passado (sim, a gente já tem passado aos 15!). E a verdade é que do presente de hoje também ainda sei pouco. Logo que acordo, me sento por 15 minutos pra entender que a única que coisa que de fato existe é o aqui e o agora. Penso no ontem, no amanhã… mas gentilmente me convido a voltar para este momento. Este. Agora mesmo. Aqui, diante do computador, escrevendo para você que, por algum motivo, parou pra ler o que eu tenho a dizer. Não agora. Em outro momento. O seu momento. O seu agora.

Lidar com o hoje é um exercício. Não sei quanto a você, mas pra mim talvez seja um dos mais difíceis que me propus a fazer. Entender que os personagens que criei para o meu futuro são apenas personagens, e que a menina de nariz arrebitado e olhos de Capitu também não é mais do que isso, não é uma tarefa simples. Requer um desapego ao qual não estou acostumada. A gente dá solidez às histórias que cria.

Nos raros momentos em que consigo olhar pra tudo isso e achar uma certa graça, no entanto, fica fácil perceber que estar no presente é muito mais confortável. Fica fácil entender que o sofrimento no presente, de modo geral, é menor porque ele é aquilo com que conseguimos lidar. De um jeito ou de outro.

A menina da foto não existe mais. É bonitinha, tem um olhar de Capitu… Mas também pode ser que tudo não passasse de uma pose para o fotógrafo. Era 1988. Hoje é 2018. Eu estou aqui, diante deste computador, falando sobre estar presente. E você está aí, lendo este texto e talvez pensando no passado… ou no futuro. Ou talvez concordando comigo que a única coisa que temos hoje é este momento que estamos vivendo exatamente agora. E que pode ser profundamente tranquilizador entender isso.

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O silêncio e o barulho

Foto: Pixabay

Foco no agora, Dani. Atenção. Nada de passado ou futuro rondando. Aí o pensamento vai lá na agenda. “Eu tinha que ter marcado aquele atendimento. Será que não é melhor parar agora e anotar. Depois posso me esquecer…” Não, Dani. Foco no aqui. Respira. Foca na respiração. Ok. O ar entra pelas narinas. Sai um pouco mais quente do que entrou. “Por que eu me irritei daquele jeito com as meninas? Meu Deus, preciso me lembrar de pedir desculpas a elas. Não seria bom fazer isso agora?” Tá doida, Daniela? Volta, pessoa. Foco no aqui. São apenas 15 minutos. “Ok. 15 minutos.” Corpo firme, mas flexível. Calor. Respiração. Energias se equilibrando. “Que blusa eu deveria usar pra gravar aquele vídeo hoje? Tô me achando meio feia…”. Volta, Dani. “Ok. Tem alguma coisa mais equilibrada que, dentro de mim, observa toda essa confusão que surge na minha mente.”

A meditação salva os meus dias. A busca pela atenção plena é um dos caminhos mais bonitos que descobri nessa jornada que há alguns anos decidi empreender em busca de paz. No meio da confusão, eu às vezes encontro o equilíbrio. Não esvazio a mente, nem paro de pensar. Apenas solto os pensamentos, que surgem em turbilhões a cada vez que me sento. E nada é mais pacificador do que esse silêncio. Ao me levantar, descubro que o atendimento com que eu me preocupava já tinha sido marcado, peço desculpas às meninas e elas nem entendem o porquê e acho que aquela camiseta de alça está bem ok pra gravar o vídeo para o YouTube. 

Quando a gente encontra um lugar silencioso pra descansar, imóveis, todos os movimentos e as palavras que se seguem são mais suaves. O que aprendo, pouco a pouco, é que não há momento nem circunstâncias ideais. Há a gente, aqui e agora, nas condições que temos hoje. O barulho pode demorar a cessar. Pode não cessar. Então vamos silenciar com barulho mesmo…