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Será que ela não vê?

Imagem: Gerd Altmann, por Pixabay

Como é possível que ela não veja o que está fazendo com a própria vida?

A pergunta, indignada, vinha de uma garota preocupada com sua amiga, segundo ela cega de paixão por um rapaz que não a respeita, sai por aí com mil outras garotas e só será capaz de fazê-la sofrer. Seu questionamento vinha carregado com um misto de preocupação, raiva do que ela acreditava ser uma “cegueira” da amiga e angústia por sentir que não podia ajudá-la. A amiga não havia solicitado sua ajuda.

É possível que a amiga não veja o que está fazendo com a própria vida. É possível também que veja… por outro ponto de vista. O ponto de vista da amiga. É possível até mesmo que aquela garota, angustiada e irritada com o problema de sua amiga, não faça a menor ideia da amplitude do olhar ou mesmo das intenções dessa amiga.

Por mais que a gente acredite estar vendo a cena do alto da montanha, se dando conta de que a outra pessoa está perto demais do objeto para conseguir observá-lo por inteiro, não é impondo o nosso ponto de vista ao outro que teremos a sua atenção. Se a gente mete a outra pessoa dentro da nossa caminhonete para levá-la ao topo do morro, de modo que ela possa perceber a amplitude da cena, é provável que ela faça todo o percurso de olhos vendados e retorne a pé, cega de raiva e sem vontade de voltar a falar conosco.

Se a gente acredita que pode ajudar, é mais gentil perguntar se a outra pessoa precisa de ajuda.

Mas eu sei que ela vai se machucar e depois virá atrás de mim, arrasada.

É possível que aconteça. E nesse momento talvez seja possível ajudá-la.

Mas vou esperar que ela se esborrache??? Que sofra??? Isso não é sadismo???

Ela realmente acreditava que poderia impedir o sofrimento da amiga. A gente sempre acredita. As mães então… essas costumam ter certeza de que poderão forrar o chão com espumas para que seus filhos jamais se machuquem. Além de acreditarem que suas visões são sempre mais amplas que as deles.

No entanto, os caminhos e as escolhas são individuais. Algumas pessoas fazem escolhas menos dolorosas, ou aprendem a encontrar lugares mais tranquilos dentro delas mesmas à custa de menos esforço. Outras vão cair e se ferir muitas vezes até se darem conta de que a vida poderia ser mais leve. E algumas chegarão muito perto da morte sem jamais se darem conta disso.

Então eu não posso fazer nada?

Tenho pra mim que pode. Acho que sempre podemos fazer alguma coisa. Talvez não o que gostaríamos de fazer. Mas, sim, sempre podemos fazer alguma coisa. E a primeira coisa que podemos fazer é entender o outro no lugar onde ele está. Experimentar seus óculos, talvez. Tentar olhar o mundo da maneira como o mundo aparece pr’aquela pessoa. Entender se ela sofre ou se somos nós que estamos a lhe antecipar o sofrimento. Fico achando que a gente não deveria antecipar o sofrimento do outro. Talvez oferecer nossa presença silenciosa, aberta e acolhedora seja o melhor que podemos fazer. Desde que o outro esteja também aberto para essa presença.

Será que ela gostaria que eu a convidasse para um café com bolo, sem julgamentos e com a alegria que a gente costumava ter nos tempos do colégio?

É possível que sim. Mas também pode ser que não.

Cultura de paz

Eu, Dora e as azeitonas

Foto: Pixabay

Acho que fazem uns quatro ou cinco anos que “empatia” virou, definitivamente, a palavra da moda. Cumpra-se ou não o que é dito, a regra é: coloque-se no lugar do outro e tente sentir o que ele está sentindo ali. É um avanço incrível se a gente pensar que, muitas vezes, nós nem tentamos imaginar o que o outro sente. Mas, se quisermos dar um passinho adiante, vamos precisar entender que “se colocar no lugar do outro” nem sempre é suficiente. Muitas vezes não é. Por um motivo bem simples: o outro não é a gente.

Tenho que fazer uma confissão a vocês: eu detesto azeitonas. Acho amargo. Já me explicaram várias vezes que não é amargo, mas é assim que eu sinto. Minha filha Dora, a primogênita, por outro lado, ama azeitonas. Uma vez, no supermercado, perguntei que guloseima ela queria levar pra casa e ela respondeu sem pestanejar: um vidro de azeitonas. Conto esse caso pra explicar que não adianta eu me colocar no lugar da Dora quando ela está comendo um prato de azeitonas. Minha primeira reação seria sentir pena dela. Mas ela está praticamente num momento de oração diante daquele prato.

Colocar-se no lugar do outro às vezes é pouco pra melhorar as nossas relações. A gente se irrita facilmente quando convida o filho, a mãe, uma amiga ou o namorado pra um programa que a gente considera simplesmente imperdível e recebe como resposta um “vou pensar” ou “acho que hoje não”. Parece desfeita. Tem gente que chega a ficar com raiva. Mas vale a pena pensar ao menos na possibilidade de não ser nada pessoal. Lembre-se das azeitonas da Dora… ela poderia, de bom grado, me dar um vidro de 500 gramas, acreditando que esse seria o melhor presente do mundo!

Ninguém precisa adivinhar se o outro gosta ou não de azeitonas, se sente-se bem na sala de cinema ou prefere a arquibancada do estádio, se gosta de companhia quando está sofrendo ou acha mais confortável ficar só nesses momentos, como também não somos obrigados a saber que a palavra que a gente escolheu usar soou ofensiva à outra pessoa. A gente pode simplesmente perguntar, sem intuir que já sabe a resposta e sem constranger a outra parte a nos responder aquilo que gostaríamos de ouvir: se você me perguntar se eu gosto de azeitonas, depois de me presentear com três vidros de 1 quilo dentro de uma cesta decorada com laço de fita vermelho, é provável que eu lhe diga que amo azeitonas! (Pensando bem, depois desse texto, acho que vai ficar um pouco constrangedor…)

Eu sigo aqui, tropeçando muito, mas tenho percebido que perguntar e observar são duas coisas que nos ajudam um bocado a melhorar as relações que a gente estabelece. No que tange às relações com filhos pequenos, tem um vídeo que a Isabela Minatel gravou para o TED que eu acho precioso e, por isso mesmo, reproduzo logo abaixo deste texto. Pra trabalharmos essas e outras questões dos nossos relacionamentos, eu convido cada um de vocês a conhecer o projeto Pacificando as Relações. Vem comigo!