terapias holísticas

Crise de cura

Imagem: Pixabay

O que negas, te subordina. O que aceitas, te transforma.

(Carl Gustav Jung)

“Tive uma noite dificílima depois da sessão de Reiki. Me arrependi de ter vindo aqui na semana passada.” O relato era da minha cliente. “Ando chorando a toa desde que estive aqui. Não durmo bem. Todos haviam me dito que o Reiki melhorava o sono e diminuía a ansiedade. Foi por isso que vim.”

Perguntei a ela há quanto tempo não chorava antes daqueles dias. “Não me lembro. Muito tempo.” Era preciso explicar-lhe como funciona uma crise de cura. Quando se varre a poeira pra debaixo do tapete, não é muito cômodo decidir fazer uma faxina. Às vezes a poeira chega a desencadear uma crise de asma. Não é que a poeira não estivesse ali. É que antes não se via.

Rosângela sofria de ansiedade, se irritava facilmente com as pessoas e chegou ao espaço terapêutico pensando em deixar, a um só tempo, o marido e o emprego. Mas, conforme me relatava naquele segundo encontro, não era alguém que se debulhasse em lágrimas como vinha fazendo nos últimos dias.

Ela se definia como uma pessoa forte, decidida e de gênio indomável. Brigava por seus direitos e por qualquer coisa que considerasse errada no mundo. Dormia mal, era vista pela família como excessivamente controladora e não tinha muita paciência para arroubos emotivos.

“Você era uma criança segura e forte?”, perguntei.

“Não. A vida me tornou forte. Eu era uma criança tola, chorona. Uma menina que não sabia brigar e vivia querendo pacificar o que não podia ser pacificado.”

Há tantas coisas que não conseguimos pacificar. Não porque não é possível, mas porque nem sempre temos recursos para isso. Tantas guerras que gostaríamos de impedir. Tantas brigas que gostaríamos de não ver. Tanta violência que desejaríamos ter impedido.

Não sei quais eram as guerras que Rosângela gostaria de ter pacificado. Sei, no entanto, que represá-las não impediu que essas guerras seguissem lhe tirando o sono e a paz pelos tempos vindouros. Não impediu que, de tempos em tempos, seus canhões estourassem dentro do peito da mulher, agora forte.

Ela estava irritada com o Reiki. No lugar dela, eu também estaria. Afinal, tudo o que ela havia amassado e apertado pra esconder em gavetas que não revelassem toda a fragilidade que lhe parecia tão má, de repente resolvera escorrer pelos olhos sem nenhum pudor.

O que ela nem imaginava é que as lágrimas que não haviam lhe dado sossego durante uma semana eram o antídoto para a dor que, em algum momento, ela não poderia mais suportar. Não se pode controlar uma dor com analgésicos a vida inteira. É preciso vivê-la, entender sua origem, olhar nos olhos dela e, só então, dizer que ela pode ir.

Minha cliente acabava de olhar nos olhos da sua própria dor. Acabava de entrar em contato com a menina que gostaria de pacificar o mundo e sentira-se incapaz. Acabava de entender que podia pacificar o seu próprio mundo. Não nos vimos muitas vezes depois daquele dia. Mas ela me mandou uma mensagem para contar que finalmente dormia melhor, que decidira dar uma nova chance ao emprego e também ao marido. E que, qualquer dia desses, gostaria de passar no espaço terapêutico porque achava que o Reiki era mesmo muito relaxante.

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Os florais e o medo

Fotos: Pixabay

Eu já havia ouvido falar dos florais de Bach, mas o que me aproximou definitivamente deles foi o medo da Rosinha. A minha caçula tinha medo de bichos. Não só de cobras, leões ou cachorros bravos. Rosinha ficava paralisada diante dos pombos na pracinha, das formigas, das moscas de padaria… Eventualmente, ela ainda pode fazer isso. Mas hoje já consegue rir de si mesma e até fazer amizade com os cachorrinhos.

Foto: Pixabay

O nome dessa florzinha amarela é Mimulus. Ela é delicada, pequena e é dela que se extrai a essência floral que ajudou a minha caçula a lidar com os seus medos. A essência floral de Mimulus ajuda a lidar com medos específicos e precisos de pessoas geralmente tímidas ou até de bebês que estranham lugares novos. E foi como um bálsamo para a minha Rosinha.

Uma das coisas que acho mais lindas nos florais de Bach é que eles surgiram como um método de auto-cura. O médico inglês Edward Bach havia sido desenganado pelos seus colegas após uma hemorragia digestiva severa, sucedida por uma cirurgia de emergência. Deram-lhe apenas 3 meses de vida. E ele viveu mais 19 anos. Morreu dormindo, logo após afirmar que seu sistema de cura, composto por 38 remédios baseados em essências florais, estava completo.

Os florais, como todas as demais terapias holísticas, não tratam doenças. Tratam pessoas adoecidas. Não há um floral pra dor de barriga, porque a sua sempre será diferente da minha. A essência floral lida com energia e pra que que eu saiba qual é a aquela que vai lhe ajudar, é preciso que eu a escute. Mas é também preciso que a sinta. Porque as palavras não dizem tudo. Em alguns casos, aliás, elas não dizem quase nada. O corpo, os gestos, os olhares e até a entonação que você dá às palavras que diz são capazes de demonstrar bem melhor de que tipo de ajuda você precisa.

Rosinha não é só Mimulus. E aquele seu amigo que é fechado e não gosta de falar das próprias emoções também não é só Water Violet. Somos um mosaico de muitas energias e emoções diferentes. Aliás, não somos. Estamos. Os florais tratam do agora. Mês que vem a gente conversa e vê como fica. Como ficou. Como a gente quer que fique. Pode ser que a dor de barriga por causa do Enem tenha passado e agora tenha aparecido uma certa ansiedade diante de um novo universo chamado universidade. Ok. Os florais também vão ajudar a lidar com isso.

Há algumas flores que nos acompanham durante longos períodos da vida. Talvez até durante a vida inteira. Há outras que nos apoiam em momentos específicos. Particularmente, acho quase poético poder me apoiar nas flores e caminhar assim, com um pouco mais de leveza e um pouco menos de dor.