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Faça uma cara feliz

Divulgação

Aclamado no Festival de Veneza, de onde saiu com um Leão de Ouro, o filme Coringa enfrentou duras críticas nos EUA, sob a acusação de incitação à violência e apoio aos atos criminosos que acontecem também fora das telas. A fita estreou no Brasil hoje e eu fui assistir. Não acho que incita a violência. Tampouco justifica atos injustificáveis. Mas é profundamente incômoda porque nos obriga a olhar para a violência desde a sua origem. O filme nos apresenta um vilão incomodamente humano, demasiado humano (perdoe a citação infame, Nietzche).

Mais que um palhaço assassino, o arqui-inimigo do Batman, é uma criatura profundamente atormentada. Seu riso não tem graça nem alegria. Sua vida é uma piada de péssimo gosto.

“Faça uma cara feliz.”

A frase é uma ordem dada ao palhaço, sofredor desde que se entende por gente.

“Sorria.” Ele repete a si mesmo, convencido de que deve levar adiante a ingrata missão de oferecer alegria ao mundo, ainda que se sinta frequentemente tratado com desprezo e violência.

Por algum motivo, a gargalhada neurótica, que o próprio personagem anuncia ao mundo como doença, e a insistência na alegria como obrigação imposta a quem foi proibido de compreender a própria dor, me lembrou essa positividade que tentamos nos impor, ainda que não sejamos capazes de acreditar na sua verdade.

Atormentado, entre outras coisas, por uma risada sobre qual sente que não exerce nenhum controle, o palhaço vilão não encontra escuta nem na terapia imposta pelo serviço social. Sem qualquer tipo de acolhimento para as dores que aprendeu a sufocar sob uma cara feliz, ele vê a sombra se impor à luminosidade obrigatória do sorriso de modo sarcástico.

E a sombra, quando sufocada, se impõe de forma gigantesca e violenta. O sofrimento existe, quer você queira ou não olhar pra ele. E é por isso que é melhor olhar, acolher e arrumar um lugar para alojá-lo dentro de si. Se houver espaço para as lágrimas e as caras tristes, o sorriso pode brotar da luminosidade que só se faz presente por causa da sombra. Não será necessário pintá-lo com tinta… ou com sangue.

Terapias

A flor de lótus e o cogumelo

Foto: Júlio César Rezende

Aos 14 anos eu pensei em fazer a minha primeira tatuagem. Um cogumelo colorido, no tornozelo. São José das Noções, protetor da reputação das adolescentes maluquinhas, me fez tremer de medo da agulha ao ver a criatura que estava sendo tatuada na kombi, onde eu pretendia me desenhar com aquilo que se parecia um pouco com a casinha dos Smurfs, e eu acabei chegando aos 44 com a pele virgem.

Ano passado, 30 anos depois desse episódio da kombi, numa sangria de escambar todos os móveis e enfeites que não combinavam com o novo novo apê, acabei trocando um espelho com moldura de mosaicos pela minha primeira – e até hoje única – tatoo. Confesso que a atitude não foi muito menos impulsiva do que teria sido naquele primeiro episódio, já que a minha intenção inicial era trocar o espelho por um botijão de gás. O desenho, no entanto, mais que certeiro era premonitório. A flor de lótus, nascendo na ponta de um emaranhado unalome, delicadamente desenhada pela agulha de Mari Tallarico, era a primeira contração do parto de uma cria gestada por muitos anos debaixo da lama.

Toda vida de gente é meio parecida, de modo que quase todo mundo que ultrapassa os 40 tem uma boa noção do que é se debater num rio enlameado com a clara sensação de que a qualquer momento será tragado por uma correnteza e nunca conseguirá voltar à superfície. E é nesse embate louco que a gente geralmente adquire a força necessária pra seguir nadando, mesmo contra a correnteza, e mantendo a cabeça pra fora da água. Inclusive porque encontra milhões de braços pra nos acolher pelo caminho (gratidão eterna a todos os amigos de todas as fases da vida!).

Mas foi durante a minha formação em AIM – Abordagem Integrada da Mente, com o psiquiatra e neurocientista Diogo Lara, que eu realizei o movimento inverso. Aceitei um convite para mergulhar profunda e rapidamente no rio enlameado em cuja superfície sempre me esforcei pra ficar. Mais que isso: fui convidada a tocar o fundo desse rio. “Se você toca o fundo do rio, toma impulso para subir”, Diogo disse. E eu acreditei. Que bom que acreditei.

Perdi o medo do rio, dos mergulhos e da lama. Minha flor de lótus interna é ainda um botão, mas já se vê que terá pétalas muito viçosas e vida longa. Aprendi a fazer os mergulhos necessários pra entender que o unalome é indispensável à flor. Sem percorrer o caminho emaranhado que lhe dá sustentação, minha flor de lótus não teria força pra emergir no meio da lama. “Acolha tudo. Acolha esse medo. Acolha essa raiva”, era a voz suave da terapeuta Daniela Franzen, que estava como assistente de Diogo Lara. Ao final, tudo estava leve. Não havia mais medo. Não havia mais raiva. Energia estável. Tranquilidade.

Meu unalome tem muito mais emaranhados que esse desenho lindo feito pela Mari nas minhas costas. E eu entendo que ainda há mergulhos por serem feitos. Sem medo. Se existe amparo e acolhimento para as emoções, tudo bem que elas brotem. Tudo bem que derramem até que se estabilizem. Tudo bem que haja lama, quando a gente passa a ter a certeza de que uma flor de lótus uma hora há de brotar por cima dessa lama, com a energia suficientemente estável pra que gente não tema mais se afogar.

Em tempo: o medo de agulhas me salvou de ter uma réplica da casinha da Smurfete impressa no tornozelo direito. Até que ele cumpriu bem o seu papel, né? 😉

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terapias holísticas

Crise de cura

Imagem: Pixabay

O que negas, te subordina. O que aceitas, te transforma.

(Carl Gustav Jung)

“Tive uma noite dificílima depois da sessão de Reiki. Me arrependi de ter vindo aqui na semana passada.” O relato era da minha cliente. “Ando chorando a toa desde que estive aqui. Não durmo bem. Todos haviam me dito que o Reiki melhorava o sono e diminuía a ansiedade. Foi por isso que vim.”

Perguntei a ela há quanto tempo não chorava antes daqueles dias. “Não me lembro. Muito tempo.” Era preciso explicar-lhe como funciona uma crise de cura. Quando se varre a poeira pra debaixo do tapete, não é muito cômodo decidir fazer uma faxina. Às vezes a poeira chega a desencadear uma crise de asma. Não é que a poeira não estivesse ali. É que antes não se via.

Rosângela sofria de ansiedade, se irritava facilmente com as pessoas e chegou ao espaço terapêutico pensando em deixar, a um só tempo, o marido e o emprego. Mas, conforme me relatava naquele segundo encontro, não era alguém que se debulhasse em lágrimas como vinha fazendo nos últimos dias.

Ela se definia como uma pessoa forte, decidida e de gênio indomável. Brigava por seus direitos e por qualquer coisa que considerasse errada no mundo. Dormia mal, era vista pela família como excessivamente controladora e não tinha muita paciência para arroubos emotivos.

“Você era uma criança segura e forte?”, perguntei.

“Não. A vida me tornou forte. Eu era uma criança tola, chorona. Uma menina que não sabia brigar e vivia querendo pacificar o que não podia ser pacificado.”

Há tantas coisas que não conseguimos pacificar. Não porque não é possível, mas porque nem sempre temos recursos para isso. Tantas guerras que gostaríamos de impedir. Tantas brigas que gostaríamos de não ver. Tanta violência que desejaríamos ter impedido.

Não sei quais eram as guerras que Rosângela gostaria de ter pacificado. Sei, no entanto, que represá-las não impediu que essas guerras seguissem lhe tirando o sono e a paz pelos tempos vindouros. Não impediu que, de tempos em tempos, seus canhões estourassem dentro do peito da mulher, agora forte.

Ela estava irritada com o Reiki. No lugar dela, eu também estaria. Afinal, tudo o que ela havia amassado e apertado pra esconder em gavetas que não revelassem toda a fragilidade que lhe parecia tão má, de repente resolvera escorrer pelos olhos sem nenhum pudor.

O que ela nem imaginava é que as lágrimas que não haviam lhe dado sossego durante uma semana eram o antídoto para a dor que, em algum momento, ela não poderia mais suportar. Não se pode controlar uma dor com analgésicos a vida inteira. É preciso vivê-la, entender sua origem, olhar nos olhos dela e, só então, dizer que ela pode ir.

Minha cliente acabava de olhar nos olhos da sua própria dor. Acabava de entrar em contato com a menina que gostaria de pacificar o mundo e sentira-se incapaz. Acabava de entender que podia pacificar o seu próprio mundo. Não nos vimos muitas vezes depois daquele dia. Mas ela me mandou uma mensagem para contar que finalmente dormia melhor, que decidira dar uma nova chance ao emprego e também ao marido. E que, qualquer dia desses, gostaria de passar no espaço terapêutico porque achava que o Reiki era mesmo muito relaxante.

terapias holísticas

Flexibilidade que cura

Imagem: Pixabay

“O Reiki é flexível como bambu.”

A frase, repetida diversas vezes pelo mestre que me iniciou nos três níveis do Reiki – e também no mestrado –, me encantou de saída. Sempre me encantaram os corpos, os caminhos e as ideias flexíveis. Adaptar-me a quaisquer circunstâncias que a vida apresente, tal e qual a água, que toma a forma do copo ou da jarra, para depois se revelar livre e fluida e se derramar onde quer que caia, é uma espécie de meta pra quem sempre acha um jeito de incluir Rock Water – o remédio de Dr. Bach, dedicado às pessoas rígidas – em todas as suas formulações florais.

A flexibilidade do método criado pelo japonês Mikao Usui é um bálsamo para a minha própria rigidez. É a cura pros meus torcicolos, dores de cabeça tensionais e ideias fixas. A energia do Reiki sabe por onde deve seguir. Permitir que ela flua por meio de mim para os corpos dos meus clientes é um percurso mágico, que cura a mim mesma enquanto trata do outro. Há um script. Sempre há. Mas ele muitas vezes se perde no exato momento em que minhas mãos tocam o corpo do outro e sentem o Byosen. A energia encontra o seu próprio script.

O Reiki aceita cromoterapia, aromaterapia, manobras de shiatsu, florais de Bach… Aceita crenças e não crenças. “O Reiki é flexível como bambu.” Para algumas pessoas, receber Reiki é fonte de um relaxamento profundo. Pra outras, é um percurso de transformação. Pra mim, é um caminho de cura. E é por isso que resolvi falar dele hoje.

O aval da ciência

Incluído desde 2017 entre os procedimentos cobertos pelo SUS, o Reiki promove o relaxamento, diminui o stress psicológico e atenua dores inclusive em pacientes de câncer. Um estudo realizado pelo psicobiólogo Ricardo Monezi, da Universidade Federal de São Paulo, mostrou que a terapia ajuda também a combater o tumor. Ele aplicou o Reiki em ratos e, na sequência, analisou suas células de defesa. “Em comparação com o grupo de controle, esses animais apresentaram um sistema imune mais agressivo contra a enfermidade. E nem precisamos falar que bichos não acreditam em Reiki.” (Para saber mais sobre essa e outras pesquisas, clique aqui)

Cultura de paz, mindfullness

Lobo-lo-bo-lo-bo-lo

Foto: Pixabay

Tem um livro infantil de que eu gosto muito. É um livro de Chico Buarque chamado Chapeuzinho Amarelo. Conta de uma menina que morria de medo do lobo, mas um dia entendeu que lobo, dito assim bem rápido, acabava virando bolo e não metia mais medo em ninguém. Não sei escrever com a poesia do Chico, então estou aqui cometendo a infâmia de resumir a obra desse jeito tosco. Mas acho que todo mundo devia ler o original e presentear às crianças queridas.

Pois bem, estou aqui falando desse livro porque acho que é uma extrema sabedoria que a gente consiga olhar bem de perto pras nossas emoções, até perceber o momento em que elas surgem… porque é exatamente ali que elas desaparecem. As crianças compreendem isso com uma sabedoria admirável. Basta ver as reações que têm ao ouvir a história da Chapeuzinho Amarelo. Nós, adultos, damos tanta solidez aos nossos sentimentos que achamos quase impossível vê-los se dissolverem.

Acordei com o coração meio apertado e uma sensação de ansiedade um tanto inexplicável. Me irritei com o barulho do telefone tocando e já ia pedir que não me dessem bom dia quando me lembrei do livro da Chapeuzinho Amarelo. De onde viria esse sininho de irritação que poderia tocar durante o dia inteiro, azedando todos os meus contatos a partir daquela manhã? Decidi ver se o meu lobo também seria capaz de ser convertido em lobo.

Pedi licença por 20 minutos porque precisava de um pouco de silêncio para espreitar as minhas emoções. De onde vinha aquele aperto no peito tão logo eu me levantara da cama? Eu tinha dormido bem… Silenciei e comecei a perguntar à minha irritação em que momento ela tinha aparecido. Eu havia despertado sem despertador. Não era o barulho do relógio, portanto. Também não eram os vizinhos, que geralmente faziam barulho à noite, mas não pela manhã.

Continuei olhando para aquela irritação, que parecia ter surgido antes mesmo do dia raiar e eu me levantar. Eu havia acordado cerca de duas horas antes de finalmente me levantar e ficara fritando na cama até um horário em que considerei razoável abrir os olhos para finalmente iniciar o dia. Mas por quê?

Na noite anterior, eu tinha trabalhado até tarde e não tinha conseguido terminar minhas tarefas. Dormi pensando no que tinha para fazer. Ao acordar, tinha clareza de que havia tempo para fazer tudo o que era preciso, mas a ansiedade de quem não tinha terminado suas tarefas ainda estava ali.

Olhei pr ‘aquilo e entendi que não havia motivo para me irritar. Nem para estar ansiosa. O dia anterior já tinha terminado. Eu não havia concluído o que havia me proposto e já havia resolvido que estava tudo bem com isso. Tanto que dormi. Agora estava acordada e poderia concluir o que precisava ser feito. Mas não antes de um café. O lobo tinha virado bolo.

Retornei do silêncio e sorri para os meus. “Bom dia, pessoal. Obrigada por me permitirem esse silêncio. Eu estava ocupada em transformar um lobo em bolo.” Ninguém entendeu nada. Mas eu ri. E pensei que devíamos nos ocupar mais de transformar nossos lobos em bolos.

Cultura de paz, mindfullness

Castelos de areia

Foto: Pixabay

Castelos de areia me lembram todas as planilhas que tentei fazer pra organizar a vida e o futuro. Arrumei tudo muito direitinho, botei no papel, marquei data, enfeitei… e a onda do mar desmanchou tudo. Até eu finalmente entender que essa é a lógica dos planos e dos castelos de areia: eventualmente, eles são muito bem executados e servem pra que fiquemos felizes ou nos sintamos muito orgulhosos… mas uma onda do mar fatalmente virá e desmanchará tudinho.

Quando a gente começa a se divertir com as ondas que destroem castelos, a vida passa a ficar mais leve. Não é um processo fácil, mas desconfio que ele é necessário. Porque as ondas sempre vão destruir os castelos. E a gente vai sempre construir outros. E chega a ser engraçado que a gente continue pensando que esses agora não serão mais destruídos… porque vão. O destino dos castelos de areia é serem destruídos pelas ondas do mar. E, no entanto, a gente insiste em acreditar que isso não vai acontecer.

Acho que este site é sobre construir castelos… e é também sobre admirar as ondas do mar. É sobre perceber que há alguma coisa que permanece mesmo quando os castelos são destruídos. A areia ainda está lá. O mar permanece. E a gente sempre consegue se reinventar.

Aqui vamos falar de pacificar e de estar em paz. E de tentar levar a vida de um jeito mais leve, mais suave… vendo as ondas do mar destruírem castelos e tentando achar uma certa graça nisso. Porque, no fundo, tudo tem uma certa graça. E se tem uma coisa que salva a gente é o humor. 🙂

Sejam bem-vindos a este lugar onde ninguém tem controle nada!